Relação enfermeiro-médico

Novembro 27, 2009 at 7:20 pm 16 comentários


Que relação é esta?

Uma relação que se quer repleta de trabalho de equipa, discussão e reflexão contínua de cuidados multidisciplinares e consequentemente interdependentes. Não há cuidados médicos de excelência que não tenham por trás cuidados de enfermagem de igual nível e vice-versa. É importante que a sociedade tenha noção disso. Enquanto profissionais de saúde em Portugal erramos drasticamente na assumpção do significado de relação interdisciplinar. Falo especificamente na relação enfermeiro-médico ou médico-enfermeiro, como bem entenderem. Num mundo cada vez mais competitivo e difícil, repleto de corrupção e favores, nem sempre o melhor é recompensado como tal, muito menos, a importância dos núcleos elementares é reconhecida. Um dos prejuízos da competitividade actual é, em si próprio, um dos alvos a abater por essa mesma competitividade.

Que quero eu dizer com isto. Actualmente a competitividade está exacerbada, e uma das vantagens dessa competitividade seria, especificamente na área da saúde, a maior qualificação e excelência dos quadros que compõem o SNS. Certo, isso seria uma vantagem óbvia, no entanto, vemos que acontece precisamente o contrário. Com o aumento da competitividade reflectida no aumento de quadros licenciados e nascimento de diversas licenciaturas especializadas nas áreas da saúde, temos visto aumentar um quadro de favores e cunhas no ingresso na vida profissional acompanhado pelo número crescente de desempregados.

Isto é um contra-senso enorme. Quando deveria ser dada prioridade aos quadros mais diferenciados vemos que o ingresso na vida profissional no SNS está cada vez mais reduzido a questões de conhecimentos e favores. Precisamente aquilo a que a competitividade visava combater. Ciclo vicioso, não; reflexo de um Estado incapaz de impôr valores de imparcialidade e justiça, talvez!

Retomando a linha condutora inicial, a relação enfermeiro-médico. Este é um paradigma comparável entre muitas outras profissões da saúde e quem sabe de outras áreas. Actualmente vivemos numa selva onde se aplica totalmente o conceito do ‘salve-se quem puder’. Sem legislação protectora dos que tentam ver os seus créditos valorizados, vemos concursos fictícios, contratações directas por olho, entre outras situações que em nada podem melhorar as bases e valores do SNS. Isto leva a que a relação entre profissionais de saúde seja cada vez mais conflituosa prejudicando a visibilidade das várias classes profissionais e os cuidados de saúde interdisciplinares aos utentes.

Todo este clima de ‘salve-se quem puder’ leva, na prática, a conflitos/relações que visam apenas a progressão individual de cada um em detrimento da qualidade de cuidados prestados em equipa. De salientar que, este confronto em que baseei o meu pensamento, não só se reflecte entre duas classes distintas mas de igual modo entre profissionais da mesma classe, o que é grave.

Como profissionais de saúde devemos impôr limites à nossa prática, não nos deixando corromper pelo sistema. E que sistema! Ao integrar uma equipa multidisciplinar é fundamental pôr de lado objectivos pessoais, crenças corporativistas, desejo de preponderância e poder, é senso-comum o facto de todos os profissionais de saúde terem uma palavra a dizer no tratamento de um utente, por isso, urge pensar no utente e não em nós próprios. É comum no seio dos enfermeiros inferiorizarem as suas capacidades e apenas criticar os erros cometidos pelos médicos, enquanto é comum os médicos tentarem desvalorizar o trabalho dos enfermeiros acumulando todos os méritos. Pois isso é facilmente resolvido com uma cultura de justiça e imparcialidade no acesso aos postos de trabalho, bem como, pela mudança de posturas e atitudes dos profissionais de saúde. Aos enfermeiros cabe a tarefa de desenvolver os seus conhecimentos e práticas e esquecerem uma prática facilitista de subsidiários de actividade dos médicos, fundamentarem as suas opiniões e contribuírem para o desenvolvimento de planos terapêuticos holísticos que sejam vantajosos para os utentes. Aos médicos urge respeitarem a opinião de outros profissionais de saúde como válida e aceitarem a discussão de propostas de outros profissionais no cumprimento de determinado plano terapêutico, bem como, assumirem que sozinhos não tratam ninguém.

O que me levou a escrever estes pequenos e irrelevantes pensamentos no contexto actual foi não só o ranking de Hospitais levado a cabo pela revista Sábado, o qual não me presto a referir por link graças a um péssimo trabalho de jornalismo que, em minha opinião, não podia subtrair as intervenções de outros profissionais de saúde muito menos ridicularizá-las em detrimento de uma só; como o bom exemplo dado pelo dr.º Barroso n’A Grande Entrevista que observei ontem, onde elogia e destaca a importância da sua equipa de Enfermagem no sucesso das intervenções levadas a cabo; bem como, após visitar um blog de um médica psiquiatra brasileira, a qual eu agradeço a sua passagem por estas bandas, constatar que a visão de um médico perante um enfermeiro pode ser tal e qual uma relação de colegas (link).

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16 Comentários Add your own

  • 1. robertamorim  |  Novembro 30, 2009 às 4:08 am

    Concordo, de facto é a realidade de hoje em dia… nao considero pequenos e irrelevantes pensamentos como referiste, pois como profissionais de saude devemos de facto reflectir sobre o assunto. Um enfermeiro que nao inferiorize as suas capacidades, a sua profissao, e invista no seu desenvolvimento e conhecimento enquanto profissional, enquanto prestador de cuidados, terá grande exito tanto pessoal como na equipa multidisciplinar.
    Infelizmente, nem sempre isso acontece. Pois é muito mais “facil” criticar os outros em vez de cada um olhar por si proprio.
    Nao vou deixar que esse caminho atravesse na minha carreira profissional, e espero que os colegas reflictam sobre o mesmo.

    Responder
  • 2. Daniel Rodrigues  |  Novembro 30, 2009 às 4:14 am

    Relevaste uma parte do binómio, e muito bem, mas da parte dos médicos há a necessidade de aceitar a presença e tomada de posição dos outros profissionais de saúde como vantagem na qualidade de cuidados aos utentes.

    Só é necessário destacar que se todos colaborarem mutuamente o processo facilita-se imenso e os resultados aumentam!

    Beijinho na testa ;)

    Responder
  • 3. Edgar Pires  |  Novembro 30, 2009 às 4:33 am

    Saudações
    Eu vi esse ranking, o serviço onde trabalho está nos primeiros lugares. No entanto, não é por aqui que prentendo entrar, quero apenas focar-me no real ponto que engloba o artigo, a relação médico/enfermeiro ou vice-versa. É um facto, na minha óptica, a expressão “enfermeiros inferiorizarem as suas capacidades e apenas criticar os erros cometidos pelos médicos, enquanto é comum os médicos tentarem desvalorizar o trabalho dos enfermeiros acumulando todos os méritos”. Infelizmente, como enfermeiro, deparo-me com tal cenário diariamente, criando consecutivamente uma pequena ‘revolta’, se assim lhe puder chamar, dentro de mim. Creio que tudo se resume à ideia pré-criada do enfermeiro para com o médico, e deste para com o enfermeiro. A mudança, e penso que é isso que aqui todos aspiramos, só ascenderá quando as posições se fizerem notar no campo de trabalho. Isto é, eu sou enfermeiro, assumo as minhas competências e faço-as respeitar, e o médico do mesmo modo o fará. Simples em palavras, complexo no contexto de trabalho..? nao creio.
    A falta de visibilidade da enfermagem e do seu real valor na comunidade em que vivemos influencia fortemente a mentalidade que nós (os enfermeiros) muita vezes temos de nós próprios e do papel que desempenhamos. Tal acontece pois não sabemos explicar e fundamentar o que fazemos. Há penso eu uma necessidade de cada um fazer uma revisão interior, e posteriormente assumir a posição que ocupa, respeitando-a, assumindo-a verdadeiramente e, repito mais uma vez, fazendo-a respeitar na sua integridade.

    Responder
  • 4. Daniel Rodrigues  |  Novembro 30, 2009 às 4:38 am

    Edgar
    Subscrevo o que disseste. E será esse o caminho mais importante a tomar pelos enfermeiros.
    Como adenda, não gostei do modo como os nossos colegas (na generalidade) se revoltaram contra a revista Sábado, muito menos a petição que não foi efectuada, na minha opinião, nos melhores moldes.
    Devemos pautar o nosso desempenho pela melhoria e demonstração de qualidades e não assente na crítica fácil.

    Abraço

    Responder
  • 5. robertamorim  |  Novembro 30, 2009 às 4:59 am

    Apesar da arrogancia de alguns médicos em acharem-se o “topo” e da retrogada ideia de que os enfermeiros sao apenas “pequenos serventes”, existem situaçoes, pelas quais esses clinicos passam, em que muitas vezes os enfermeiros resolvem a situaçao sem o medico intervir praticamente, falo por exemplo, em casos de emergencia.
    Mas para isso precisamos, lá está, de investir no nosso trabalho, e aí sim, fazemos a diferença e a atitude de muitos medicos tende a mudar.
    Acredito que no futuro isso se reflicta, mas será um longo caminho a percorrer, sem duvida.

    Ah! e o beijinho na testa foi bem recebido :) **

    Responder
  • 6. Daniel Rodrigues  |  Novembro 30, 2009 às 6:33 am

    Não esquecendo claro os cuidados de enfermagem e todas as outras intervenções autónomas, bem como, a participação do enfermeiro na tomada de decisão de qualquer intervenção terapêutica.

    Tudo bonito… mas é preciso pôr em prática.

    Outro beijo, este pode ser onde quiseres! :)

    Responder
  • 7. Carla Vieira  |  Maio 18, 2010 às 9:01 pm

    Olá…
    Estou fazendo um trabalho da faculdade sobre o relacionamento medico/enfermeiro mas esta muito dificil achar artigos, entrevistas etc sobre o tema. Achei interessante o topico, e gostaria de mais opinioes.

    obrigada.

    Responder
  • 8. Daniel Rodrigues  |  Maio 19, 2010 às 1:52 am

    Estou sempre ao dispor.
    danyelrodrigues@gmail.com
    Cumprimentos

    Responder
  • 9. Pedro Teixeira  |  Maio 27, 2010 às 5:43 pm

    É simples…quem quer ser médico vai há faculdade e torna-se médico…quem quer ser enfermeiro vai á faculdade e torna-se enfemeiro…agora ir á faculdade tirar enfermagem e depois querer ser médico está errado…qualquer dia entro num banco e digo…trabalho cá todos os dias e portanto posso ser banqueiro…

    Portanto…conclusão cada um tens as suas funções e competências…respeitem o espaço e papel do outro…se ao enfermeiro interessa o papel de lider nas decisoes, etc etc etc…entao tirou o curso errado…as regras são claras antes de entrar na faculdade.

    Nunca ninguem disse que uma boa relação profissional baseia-se em aceitar as opiniões de cada um por igual…não funciona na saude..num banco…numa empresa…
    Não funciona…portanto nao se vitimizem…querem um papel de liderança, autonomia, maior conhecimento, maior remuneraçao, maior preponderãncia…é simples…mudem de profissão, estudem para ser médicos…assumam responsabilidades maiores, lutem mais..sofram mais…aí sim

    Responder
    • 10. Daniel Rodrigues  |  Maio 29, 2010 às 10:18 pm

      Tenho uma opinião bem mais sóbria que a sua.
      Tenha paciência. Cada um tem as suas competências específicas. Cada um tem a sua opinião científica a valorizar.
      Cumprimentos

      Responder
  • 11. MARCIONE RESPLANDES  |  Fevereiro 29, 2012 às 4:07 am

    nesse exato momento inicio um grande trabalho sobre A relação do enfermeiro com o medico no contexto profissional.
    fico feliz em ter como base os comentarios ricos e produtivos que estou encontrando.
    Que pena q ainda temos que lidar com os comentarios sem valor cientifico em conhecimentos…

    abraços.

    Responder
  • 12. vinicius  |  Março 29, 2012 às 4:07 am

    Bom ambos enfermeiros e médicos possuem diferentes qualidades e valores,porém, sempre ouviram? sempre! o médico sera mais respeitado que o enfermeiro,não tenham dúvida! . por quê? é muito simples qualquer um consegue se formar em enfermagem .uma faculdade se comparada com a de medicina muitooo extremamente barata quase de graça e o tempo que um estudante de enfermagem passa na faculdade é extremamente menor do que um estudande de medicina . se um estudante de enfermagem estuda 8 horas por um de medicina estuda 17h. concluindo muitos enfermeiros , a maioria foi ser enfermeiro pq não tiveram condições de ser médico , isso vcs tem que assumir.

    Responder
    • 13. Joano  |  Abril 10, 2012 às 3:49 pm

      Na graduação a carga horaria de estudo é de grande diferença, mas depois no exercício da profissão a carga horário de trabalho se invertem! Fatooo.

      Responder
  • 14. Ivagner Ribeiro  |  Janeiro 12, 2014 às 5:19 am

    Vou realizar uma comparação entre o professor e o médico. Ambos detém conhecimentos específicos em sua área, ambos são respeitados pela sociedade, ambos têm grandes responsabilidades. Porém, hoje, são poucos que querem a docência e muitos que querem ser médicos. Por quê? A resposta é simples: pagam mal aos professores e muito bem aos médicos.

    A escola funciona em torno do profissional professor, e não do pedagogo, técnico em asssuntos educacionais, técnicos administrativos e demais professores, mas são poucos aqueles que olham para os professores e dizem: eu serei professor também. Mas se os professores ganhassem mais, certamente que teriam muitas pessoas com invejas ou dizendo que nasceram pra docência. Ressalto, que os trabalhos de cada um dos membros na comunidade educativa tem grande importância.

    Quanto à complexidade dos procedimentos, eu duvido que um médico aprenda tudo que tem de aprender sobre enfermagem ou fisioterapia ou farmacologia. Karaka, é muita coisa…então não se trata de mais conhecimento também.

    Desta forma, não há nada de errado quando um enfermeiro, um fisioterapeuta ou um farmacêutico querem ser médicos, eles querem apenas aumentarem seus vencimentos, o que muito natural em nossa sociedade. Terem maior poder de compra. Suas profissões já são respeitadas. Mas estes profissionais ainda não estão ganhando como deveriam. Mas duvido que alguém escreveria essa postagem se a diferença de salários não fosse gritante.

    Os altos salários dos médicos causam em alguns deles um ar de prepotência, que é desnecessário, e causam em muitos profissionais da saúde uma inveja saudável, porque gostaria de ganhar o mesmo, e com razão.

    Mas na nossa sociedade as pessoas são valorizadas muitas vezes pelo salário, e não pelo que fazem somente. Então, espero que os médicos não se iludam com isso, pois se daqui alguns anos as nossas leis mudarem, e o profissional médico começar a ganhar pouco, não será estranho observarmos várias pessoas admirando estes profiissionais, porém ninguém querendo ser médico ou observarmos muitos profissionais afirmando que entraram no campo errado. E o governo criando musicas motivacionais.

    Enquanto isso vamos cantando….A nota de uma partitura, o desenho de arquitetura…tudo vem do professor…

    Responder
  • 15. Flanklin Stem Santos da Silva  |  Maio 13, 2014 às 11:05 pm

    SALÁRIO DIGNO PARA TODOS
    A verdade é que deveria ter respeito e valorização dos nossos profissionais, salário digno é assim:
    Graduado… Dr. Médico – 100%
    Graduado… Dr. Enfermeiro – 70% do Dr. Médico
    Graduado… Outros Doutores da saúde 70% do Dr. Enfermeiro

    Nível Médio – Técnico de Enfermagem ou outros da saúde – 50% dos outros Doutores da saúde
    Ensino fundamental – Auxiliar de Enfermagem ou outros da saúde – 70% do Técnico de Enfermagem ou outros da saúde.

    30 HORAS JÁ: ENFERMAGEM E TODOS – ÁREA DE SAÚDE

    … xxx … xxx … xxx … XXX … xxx … xxx … xxx …

    Acredite: SER DOUTOR É MAIS FÁCIL DO QUE SE TORNAR ENFERMEIRO E MÉDICO

    Os 10 MANDAMENTOS DOS DOUTORES: MÉDICOS E ENFERMEIROS

    1 – Se você não sabe o que tem, dá VOLTAREN;

    2 – Se você não entende o que viu, dá BENZETACIL;

    3 – Apertou a barriga e fez ‘ahhnnn’, dá BUSCOPAN;

    4 – Caiu e passou mal, dá GARDENAL;

    5 – Tá com uma dor bem grandona? Dá DIPIRONA;

    6 – Se você não sabe o que é bom, dá DECADRON;

    7 – Vomitou tudo o que ingeriu, dá PLASIL;

    8 – Se a pressão subiu, dá CAPTOPRIL;

    9 – Se a pressão deu mais uma grande subida, dá FUROSEMIDA!

    10 – Chegou morrendo de choro, ponha no SORO.

    …e mais…

    Arritmia doidona dá AMIODARONA…

    Pelo não, pelo sim, dá ROCEFIN.

    …e SE NADA DER CERTO, NÃO TEM NEUROSE…
    …DIGA QUE:

    É SÓ ESSA NOVA VIROSE!!!

    Parece brincadeira, mas… É verdade!

    (Recebido por e-mail – Autor Desconhecido)

    … xxx … xxx … xxx … XXX … xxx … xxx … xxx …

    Não julgar o próximo
    Um médico entrou num hospital apressado, depois de ter sido chamado para uma cirurgia urgente. Ele respondeu à chamada imediatamente e mal chegou trocou-se e foi direto para o bloco operatório. Pelo caminho encontrou o pai do rapaz que ia ser operado a andar para trás e para a frente à espera do médico. Quando o viu, o pai gritou:
    -”Porque demorou este tempo todo a vir? Não sabe que a vida do meu filho está em perigo? Você não tem o mínimo de sentido de responsabilidade?”
    O médico Dr. José, sorriu e respondeu serenamente:
    -”Peço-lhe desculpa, não estava no hospital e vim mal recebi a chamada… Agora, gostaria que você se acalmasse para que eu também possa fazer o meu trabalho.”
    -”Acalmar-me?!?! E se o seu filho estivesse dentro do bloco operatório, você também ficaria calmo? E se o seu filho morresse o que faria?”, disse o pai visivelmente agitado.
    -”Ficar nesse estado alterado e de nervos não vai ajudar nada, nem a si, nem a mim e muito menos ao seu filho. Prometo-lhe que farei o melhor que sei e consigo dentro das minhas capacidades”, disse o médico Dr. José.
    -”Falar assim é fácil, quando não nos diz respeito.”, murmurou o pai entre dentes.
    Passadas algumas horas, a cirurgia terminou e o médico Dr. José e a enfermeira Drª Maria, saíram sorridentes de encontro ao pai.
    -”A cirurgia foi um sucesso. Conseguimos salvar o seu filho! Se tiver alguma questão pergunte à enfermeira Drª. Maria.”
    Sem esperar pela resposta, o clínico prosseguiu caminho visivelmente apressado. O pai irritado dirigiu-se à enfermeira Drª. Maria e desabafou:
    -”O médico Dr. José é mesmo arrogante… Será que lhe custava muito ficar aqui mais uns minutos para eu lhe questionar em relação ao estado geral do meu filho?”
    A enfermeira Drª. Maria, um pouco abalada e quase a chorar respondeu-lhe:
    -”O filho do Dr. José morreu ontem num acidente rodoviário. Ele estava no funeral quando o chamamos para a cirurgia do seu filho. Agora que a cirurgia terminou e o seu filho foi salvo, o Dr. José, voltou para o funeral a correr para prestar a última homenagem ao filho dele.”

    Pense Nisso: NUNCA JULGUE!

    Responder
  • 16. Flanklin Stem Santos da Silva  |  Maio 21, 2014 às 10:05 pm

    Todos Nós Somos Doutores

    1. Introdução

    De tempos em tempos, volta a dúvida, a discussão: quem é Doutor/doutor? Devo/posso chamar meu médico de “doutor”? E um advogado pode assim se denominar? E os cirurgiões-dentistas, os engenheiros, os enfermeiros, os fisioterapeutas? “Doutor” não é apenas quem defende tese em Curso de Doutorado? Afinal, “doutor” é título ou forma de tratamento? Quem é doutor?

    Para esclarecer a questão, surge outra hesitação: a que fontes recorrer? Aos dicionários? À História? À legislação? Aos usos e costumes que se instauram em nossa vida em sociedade?

    O presente artigo pretende trazer algumas luzes sobre o assunto.

    2. Os Doutores da Lei – os escribas

    A palavra “escriba” procede do latim, do verbo “scribere”, que significa “escrever”. Na antiguidade, os escribas eram homens que atuavam como copistas e redatores das leis. Sua função, entre os hebreus, acabou por concentrar-se na interpretação e no ensino das Sagradas Escrituras e na formulação e aplicação do Direito, deduzido dos livros sagrados. Nos Evangelhos, são chamados de rabinos, de mestres, qualificativos que foram aplicados também a Jesus Cristo e a João Batista.

    Um dos pontos centrais da narrativa dos Evangelhos é o ataque enérgico de Jesus contra esses Doutores da Lei, como se pode ler em Mateus-cap.23: 1-7;23-27:

    Então, falou Jesus às multidões e aos seus discípulos:
    Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus.
    Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem. Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.
    Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas. Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens. (…)

    Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!
    Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança!
    Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!
    Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!

    3. Os Doutores da Igreja

    Os primeiros ilustres mestres da fé, sucessores imediatos ou quase imediatos dos apóstolos, recebem na História da Igreja a qualificação de Padres Apostólicos, entre eles Inácio de Antioquia, Clemente de Roma e Ireneu de Lyon.

    A geração seguinte é chamada de Padres da Igreja. A partir do século IV, brilham como expoentes os chamados Doutores da Igreja, muitos dos quais fazem parte dos Padres da Igreja. São em nº de 32.

    Os Doutores da Igreja são homens e mulheres reverenciados pela Igreja pelo especial valor de seus escritos, de suas pregações e da santidade de suas vidas, dando assim contribuição valiosa à fé, ao entendimento dos Evangelhos e da doutrina, Citam-se entre eles Santo Agostinho (354 – 430), Santa Catarina de Sena (1347 – 1380), São Gerônimo (384 – 420), São João Crisóstomo (349 – 407), São João da Cruz (1542 – 1591), Santa Teresa d’Ávila (1515 – 1582) e São Tomás de Aquino (1225 – 1274).

    D. Lucas Moreira Neves lembra que, quando o papa João Paulo II declarou Santa Teresinha do Menino Jesus Doutora da Igreja, um jornalista sugeriu que a santa carmelita se tornasse intercessora em favor dos hospitais públicos brasileiros e em favor dos doentes que são atendidos muito mal. Outro propôs Teresinha como padroeira da Pastoral da Saúde. Lamentável esse equívoco dos jornalistas, ao confundir esse título de “Doutor” com o sentido de “médico”.

    4. Os advogados

    O título de “doutor” foi outorgado, pela primeira vez, por uma universidade, a um advogado, em Bolonha, que passou a ostentar o título de “Doctor Legum”.

    Entre nós, a tradição de se chamar o advogado de “doutor” remonta ao Brasil Colônia. Naquela época, as famílias ricas prezavam sobremaneira ter em seu meio um advogado (e também um padre e um político). O meio de acesso a esses postos era a educação.

    O advogado – conhecedor de leis, detentor de certo poder de libertar e de prender – assenhorava-se desse poder mediante formação privilegiada. A tradição logo transformou o termo em sinônimo de posição superior dentro da escala social.

    Há que se mencionar ainda o Alvará Régio, editado por D. Maria, a Pia, de Portugal, pelo qual os bacharéis em Direito passaram a ter o direito ao tratamento de “doutor”. E o Decreto Imperial (DIM), de 1º de agosto de 1825, que deu origem à Lei do Império de 11 de agosto de 1827, que “cria dois Cursos de Ciências Jurídicas e Sociais; introduz regulamento, estatuto para o curso jurídico; dispõe sobre o título de doutor para o advogado”.

    5. Os médicos

    Nos países de língua inglesa, os médicos são chamados de “doctor”. Quando escrevem artigos, ou em seus jalecos, no entanto, não empregam o termo, mas apenas o próprio nome, acompanhado da abreviatura M.D. (medical degree), isto é, “formado em Medicina”, “médico”.

    Entre nós, o “doutor” do médico se generalizou na boca do povo por tradição, por respeito, por admiração, por espontânea deferência pelo saber da doutrina e prática do ofício médico.

    6. Os enfermeiros e os fisioterapeutas

    Algumas profissões não-médicas da área da saúde – como a de enfermeiro e de fisioterapeuta – evocam também para si a prerrogativa do título de “doutor”.

    Assim, o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional de 8ª Região – CREFITO 8 – recomenda o título de “doutor” aos profissionais fisioterapeutas e terapeutas. Por seu turno, também o Conselho Federal de Enfermagem – COFEN – autoriza o uso do título pelos enfermeiros, conforme Resolução COFEN nº 256/2001. Entendem os respectivos Conselhos que deva ser mantida a isonomia entre os componentes da Equipe de Saúde e que “a não utilização do título de Doutor leve a sociedade e mais especificamente a clientela (…) a pressupor subalternidade, inadmissível e inconcebível, em se tratando de profissional de nível superior”.

    7. Os cirurgiões-dentistas, os engenheiros, os economistas …

    Há o costume por parte de cirurgiões-dentistas, engenheiros e economistas de autodenominarem-se ou de serem chamados de “doutores”. Em outras categorias de profissionais, é mais difícil encontrar alguém que assim se intitule.

    A propósito, lembramos que, em Portugal, o título de doutor é estendido a todos os formados em nível superior.

    8. Os que fizeram doutorado

    No mundo acadêmico, é chamado de “doutor” quem cursou doutorado e defendeu uma tese diante de uma banca composta por cinco doutores.

    9. O Doutor Honoris Causa

    O título honorífico “Doutor Honoris Causa” é o reconhecimento acadêmico mais elevado de uma universidade para distinguir pessoas que, em qualquer tempo, tenham prestado relevantes serviços, servindo de exemplo para a comunidade acadêmica e para a sociedade.

    10. “Os bem vestidos”

    Aziz Lasmar, em caderno de Debates da RBORL, de março – abril de 2004, relata que atendia a uma menina de uns 5 ou 6 anos, que prestava atenção a tudo, principalmente a como a mãe se dirigia a ele: doutor pra cá, doutor pra lá. Num dado momento perguntou à mãe se ele era afinal doutor ou médico. Antes que a mãe respondesse, o médico falou que era médico ….. que doutor era qualquer um que tivesse carro.

    O relato ilustra um dos vários sentidos do termo “doutor”: tratamento que as pessoas mais humildes dispensam aos que se apresentam bem vestidos, aos que estão acima, que podem mais , que têm mais. É, assim, um tratamento de vassalagem, e quem o usa se submete, se põe em inferioridade social, se auto-exclui.

    11. Conclusão

    Entre os advogados, há quem pense que os médicos pretendem monopolizar o título de doutor, primeiramente empregado por advogados. Entre médicos, há quem considere que enfermeiros e fisioterapeutas que se intitulam “doutores” fazem propaganda enganosa, dando a impressão de serem médicos. Entre os pós-graduados que cursam doutorado e defendem tese há quem julgue que somente eles podem ser chamados de doutores.

    Constatada a polêmica, e depois do que se escreveu até aqui, apresentam-se algumas conclusões, abertas a críticas e a outros considerandos.

    1. O “doutor” do advogado e do médico surgiu, se fixou e se matém por longa tradição, por especial e espontânea deferência dos cidadãos, dos utentes da língua. Uso legítimo, pois, “O que o simples bom senso diz é que não se repreende de leve num povo o que geralmente agrada a todos”, disse o poeta Gonçalves Dias. Bem mais antiga é a sentença de Horácio ao se referir ao uso, que ele considera proponderante na interação lingüística:Multa renascentur quae jam cecidere cedentque / Quae nunc sunt in honore vocabula, si volet usus, / Quem penes arbitrium est et jus et norma loquendi. (Muitas palavras que já morreram renscerão e cairão em desuso as palavras que atualmente estão em voga, se assim quiser o uso, que detém o arbítrio, o direito e a norma de falar).

    Entende-se, pois, que a língua é uma questão de usos e costumes. Que os falantes são os senhores absolutos de seu idioma. Que os usos lingüísticos não se regulamentam por decretos, por imposição de resoluções. A lei, em questões lingüísticas, é ilegal. Quem ousa legislar sobre o que se deve e o que não se deve dizer incorre em abuso de poder. É uma atitude irracional e irrealista, pois nada altera o que é de uso consagrado. Aos que se insurgem e vociferam contra tais usos, que têm direitos de cidadania, Mestre Luft lembrava a frase: “Os cães ladram e a caravana passa”.
    2. Quanto ao “doutor” do enfermeiro, do fisioterapeuta, do cirurgião-dentista, do engenheiro, do formado em curso superior …. dizem os dicionários que “doutor” é um título que, por cortesia, se costuma dar àqueles diplomados em curso superior. Se se costuma, de fato, não há por que discutir. Em Portugal, o emprego desse título é generalizado a professores primários, formados em Medicina, diplomados em faculdades e os que defendem tese de doutoramento. Aliás, lá todo mundo é “excelência”. Costume. Tradição. Mas, se aqui no Brasil não se costuma … Pode-se dar que esse uso se instaure ou se generalize, pelo fato de os profissionais em questão assim se denominarem e/ou serem denominados por seus paciente ou clientes.
    3. Pelo que se disse até aqui, não assiste razão àqueles que querem reservar o título de “doutor” somente a quem fez doutorado e defendeu tese. Se querem se distinguir dos demais, há formas como as exemplificadas:
    Dr. Fulano de Tal – Doutor em Medicina
    Prof. Dr. Fulano de Tal – Doutor em Letras
    4. Registram os dicionários que “doutor” é aquele que está habilitado a ensinar; homem muito instruído em qualquer ramo; homem que deita sapiência a propósito de tudo; homem com muita experiência; indivíduo que reincinde, que costuma ter o mesmo procedimento (Ele é doutor em prometer e não cumprir); tratamento dado por porteiros, frentistas, engraxates, flanelinhas, etc; entre outros resgistros. Então, todos nós somos doutores.
    5. Há doutores e doutores. Cabe discernir onde o vulgo confunde.
    6. Etimologicamente, o vocábulo “doctor” procede do verbo latino “docere” (“ensinar”). Significa, pois, “mestre”, “preceptor”, “o que ensina”. Da mesma família é a palavra “douto”que significa “instruído”, “sábio”. Sábio. Então, quem é mesmo Doutor?

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