Relação enfermeiro-médico

Novembro 27, 2009 at 7:20 pm 14 comentários


Que relação é esta?

Uma relação que se quer repleta de trabalho de equipa, discussão e reflexão contínua de cuidados multidisciplinares e consequentemente interdependentes. Não há cuidados médicos de excelência que não tenham por trás cuidados de enfermagem de igual nível e vice-versa. É importante que a sociedade tenha noção disso. Enquanto profissionais de saúde em Portugal erramos drasticamente na assumpção do significado de relação interdisciplinar. Falo especificamente na relação enfermeiro-médico ou médico-enfermeiro, como bem entenderem. Num mundo cada vez mais competitivo e difícil, repleto de corrupção e favores, nem sempre o melhor é recompensado como tal, muito menos, a importância dos núcleos elementares é reconhecida. Um dos prejuízos da competitividade actual é, em si próprio, um dos alvos a abater por essa mesma competitividade.

Que quero eu dizer com isto. Actualmente a competitividade está exacerbada, e uma das vantagens dessa competitividade seria, especificamente na área da saúde, a maior qualificação e excelência dos quadros que compõem o SNS. Certo, isso seria uma vantagem óbvia, no entanto, vemos que acontece precisamente o contrário. Com o aumento da competitividade reflectida no aumento de quadros licenciados e nascimento de diversas licenciaturas especializadas nas áreas da saúde, temos visto aumentar um quadro de favores e cunhas no ingresso na vida profissional acompanhado pelo número crescente de desempregados.

Isto é um contra-senso enorme. Quando deveria ser dada prioridade aos quadros mais diferenciados vemos que o ingresso na vida profissional no SNS está cada vez mais reduzido a questões de conhecimentos e favores. Precisamente aquilo a que a competitividade visava combater. Ciclo vicioso, não; reflexo de um Estado incapaz de impôr valores de imparcialidade e justiça, talvez!

Retomando a linha condutora inicial, a relação enfermeiro-médico. Este é um paradigma comparável entre muitas outras profissões da saúde e quem sabe de outras áreas. Actualmente vivemos numa selva onde se aplica totalmente o conceito do ‘salve-se quem puder’. Sem legislação protectora dos que tentam ver os seus créditos valorizados, vemos concursos fictícios, contratações directas por olho, entre outras situações que em nada podem melhorar as bases e valores do SNS. Isto leva a que a relação entre profissionais de saúde seja cada vez mais conflituosa prejudicando a visibilidade das várias classes profissionais e os cuidados de saúde interdisciplinares aos utentes.

Todo este clima de ‘salve-se quem puder’ leva, na prática, a conflitos/relações que visam apenas a progressão individual de cada um em detrimento da qualidade de cuidados prestados em equipa. De salientar que, este confronto em que baseei o meu pensamento, não só se reflecte entre duas classes distintas mas de igual modo entre profissionais da mesma classe, o que é grave.

Como profissionais de saúde devemos impôr limites à nossa prática, não nos deixando corromper pelo sistema. E que sistema! Ao integrar uma equipa multidisciplinar é fundamental pôr de lado objectivos pessoais, crenças corporativistas, desejo de preponderância e poder, é senso-comum o facto de todos os profissionais de saúde terem uma palavra a dizer no tratamento de um utente, por isso, urge pensar no utente e não em nós próprios. É comum no seio dos enfermeiros inferiorizarem as suas capacidades e apenas criticar os erros cometidos pelos médicos, enquanto é comum os médicos tentarem desvalorizar o trabalho dos enfermeiros acumulando todos os méritos. Pois isso é facilmente resolvido com uma cultura de justiça e imparcialidade no acesso aos postos de trabalho, bem como, pela mudança de posturas e atitudes dos profissionais de saúde. Aos enfermeiros cabe a tarefa de desenvolver os seus conhecimentos e práticas e esquecerem uma prática facilitista de subsidiários de actividade dos médicos, fundamentarem as suas opiniões e contribuírem para o desenvolvimento de planos terapêuticos holísticos que sejam vantajosos para os utentes. Aos médicos urge respeitarem a opinião de outros profissionais de saúde como válida e aceitarem a discussão de propostas de outros profissionais no cumprimento de determinado plano terapêutico, bem como, assumirem que sozinhos não tratam ninguém.

O que me levou a escrever estes pequenos e irrelevantes pensamentos no contexto actual foi não só o ranking de Hospitais levado a cabo pela revista Sábado, o qual não me presto a referir por link graças a um péssimo trabalho de jornalismo que, em minha opinião, não podia subtrair as intervenções de outros profissionais de saúde muito menos ridicularizá-las em detrimento de uma só; como o bom exemplo dado pelo dr.º Barroso n’A Grande Entrevista que observei ontem, onde elogia e destaca a importância da sua equipa de Enfermagem no sucesso das intervenções levadas a cabo; bem como, após visitar um blog de um médica psiquiatra brasileira, a qual eu agradeço a sua passagem por estas bandas, constatar que a visão de um médico perante um enfermeiro pode ser tal e qual uma relação de colegas (link).

About these ads

Entry filed under: Saúde. Tags: .

Por agora, aconselho: Incêndio

14 Comentários Add your own

  • 1. robertamorim  |  Novembro 30, 2009 às 4:08 am

    Concordo, de facto é a realidade de hoje em dia… nao considero pequenos e irrelevantes pensamentos como referiste, pois como profissionais de saude devemos de facto reflectir sobre o assunto. Um enfermeiro que nao inferiorize as suas capacidades, a sua profissao, e invista no seu desenvolvimento e conhecimento enquanto profissional, enquanto prestador de cuidados, terá grande exito tanto pessoal como na equipa multidisciplinar.
    Infelizmente, nem sempre isso acontece. Pois é muito mais “facil” criticar os outros em vez de cada um olhar por si proprio.
    Nao vou deixar que esse caminho atravesse na minha carreira profissional, e espero que os colegas reflictam sobre o mesmo.

    Responder
  • 2. Daniel Rodrigues  |  Novembro 30, 2009 às 4:14 am

    Relevaste uma parte do binómio, e muito bem, mas da parte dos médicos há a necessidade de aceitar a presença e tomada de posição dos outros profissionais de saúde como vantagem na qualidade de cuidados aos utentes.

    Só é necessário destacar que se todos colaborarem mutuamente o processo facilita-se imenso e os resultados aumentam!

    Beijinho na testa ;)

    Responder
  • 3. Edgar Pires  |  Novembro 30, 2009 às 4:33 am

    Saudações
    Eu vi esse ranking, o serviço onde trabalho está nos primeiros lugares. No entanto, não é por aqui que prentendo entrar, quero apenas focar-me no real ponto que engloba o artigo, a relação médico/enfermeiro ou vice-versa. É um facto, na minha óptica, a expressão “enfermeiros inferiorizarem as suas capacidades e apenas criticar os erros cometidos pelos médicos, enquanto é comum os médicos tentarem desvalorizar o trabalho dos enfermeiros acumulando todos os méritos”. Infelizmente, como enfermeiro, deparo-me com tal cenário diariamente, criando consecutivamente uma pequena ‘revolta’, se assim lhe puder chamar, dentro de mim. Creio que tudo se resume à ideia pré-criada do enfermeiro para com o médico, e deste para com o enfermeiro. A mudança, e penso que é isso que aqui todos aspiramos, só ascenderá quando as posições se fizerem notar no campo de trabalho. Isto é, eu sou enfermeiro, assumo as minhas competências e faço-as respeitar, e o médico do mesmo modo o fará. Simples em palavras, complexo no contexto de trabalho..? nao creio.
    A falta de visibilidade da enfermagem e do seu real valor na comunidade em que vivemos influencia fortemente a mentalidade que nós (os enfermeiros) muita vezes temos de nós próprios e do papel que desempenhamos. Tal acontece pois não sabemos explicar e fundamentar o que fazemos. Há penso eu uma necessidade de cada um fazer uma revisão interior, e posteriormente assumir a posição que ocupa, respeitando-a, assumindo-a verdadeiramente e, repito mais uma vez, fazendo-a respeitar na sua integridade.

    Responder
  • 4. Daniel Rodrigues  |  Novembro 30, 2009 às 4:38 am

    Edgar
    Subscrevo o que disseste. E será esse o caminho mais importante a tomar pelos enfermeiros.
    Como adenda, não gostei do modo como os nossos colegas (na generalidade) se revoltaram contra a revista Sábado, muito menos a petição que não foi efectuada, na minha opinião, nos melhores moldes.
    Devemos pautar o nosso desempenho pela melhoria e demonstração de qualidades e não assente na crítica fácil.

    Abraço

    Responder
  • 5. robertamorim  |  Novembro 30, 2009 às 4:59 am

    Apesar da arrogancia de alguns médicos em acharem-se o “topo” e da retrogada ideia de que os enfermeiros sao apenas “pequenos serventes”, existem situaçoes, pelas quais esses clinicos passam, em que muitas vezes os enfermeiros resolvem a situaçao sem o medico intervir praticamente, falo por exemplo, em casos de emergencia.
    Mas para isso precisamos, lá está, de investir no nosso trabalho, e aí sim, fazemos a diferença e a atitude de muitos medicos tende a mudar.
    Acredito que no futuro isso se reflicta, mas será um longo caminho a percorrer, sem duvida.

    Ah! e o beijinho na testa foi bem recebido :) **

    Responder
  • 6. Daniel Rodrigues  |  Novembro 30, 2009 às 6:33 am

    Não esquecendo claro os cuidados de enfermagem e todas as outras intervenções autónomas, bem como, a participação do enfermeiro na tomada de decisão de qualquer intervenção terapêutica.

    Tudo bonito… mas é preciso pôr em prática.

    Outro beijo, este pode ser onde quiseres! :)

    Responder
  • 7. Carla Vieira  |  Maio 18, 2010 às 9:01 pm

    Olá…
    Estou fazendo um trabalho da faculdade sobre o relacionamento medico/enfermeiro mas esta muito dificil achar artigos, entrevistas etc sobre o tema. Achei interessante o topico, e gostaria de mais opinioes.

    obrigada.

    Responder
  • 8. Daniel Rodrigues  |  Maio 19, 2010 às 1:52 am

    Estou sempre ao dispor.
    danyelrodrigues@gmail.com
    Cumprimentos

    Responder
  • 9. Pedro Teixeira  |  Maio 27, 2010 às 5:43 pm

    É simples…quem quer ser médico vai há faculdade e torna-se médico…quem quer ser enfermeiro vai á faculdade e torna-se enfemeiro…agora ir á faculdade tirar enfermagem e depois querer ser médico está errado…qualquer dia entro num banco e digo…trabalho cá todos os dias e portanto posso ser banqueiro…

    Portanto…conclusão cada um tens as suas funções e competências…respeitem o espaço e papel do outro…se ao enfermeiro interessa o papel de lider nas decisoes, etc etc etc…entao tirou o curso errado…as regras são claras antes de entrar na faculdade.

    Nunca ninguem disse que uma boa relação profissional baseia-se em aceitar as opiniões de cada um por igual…não funciona na saude..num banco…numa empresa…
    Não funciona…portanto nao se vitimizem…querem um papel de liderança, autonomia, maior conhecimento, maior remuneraçao, maior preponderãncia…é simples…mudem de profissão, estudem para ser médicos…assumam responsabilidades maiores, lutem mais..sofram mais…aí sim

    Responder
    • 10. Daniel Rodrigues  |  Maio 29, 2010 às 10:18 pm

      Tenho uma opinião bem mais sóbria que a sua.
      Tenha paciência. Cada um tem as suas competências específicas. Cada um tem a sua opinião científica a valorizar.
      Cumprimentos

      Responder
  • 11. MARCIONE RESPLANDES  |  Fevereiro 29, 2012 às 4:07 am

    nesse exato momento inicio um grande trabalho sobre A relação do enfermeiro com o medico no contexto profissional.
    fico feliz em ter como base os comentarios ricos e produtivos que estou encontrando.
    Que pena q ainda temos que lidar com os comentarios sem valor cientifico em conhecimentos…

    abraços.

    Responder
  • 12. vinicius  |  Março 29, 2012 às 4:07 am

    Bom ambos enfermeiros e médicos possuem diferentes qualidades e valores,porém, sempre ouviram? sempre! o médico sera mais respeitado que o enfermeiro,não tenham dúvida! . por quê? é muito simples qualquer um consegue se formar em enfermagem .uma faculdade se comparada com a de medicina muitooo extremamente barata quase de graça e o tempo que um estudante de enfermagem passa na faculdade é extremamente menor do que um estudande de medicina . se um estudante de enfermagem estuda 8 horas por um de medicina estuda 17h. concluindo muitos enfermeiros , a maioria foi ser enfermeiro pq não tiveram condições de ser médico , isso vcs tem que assumir.

    Responder
    • 13. Joano  |  Abril 10, 2012 às 3:49 pm

      Na graduação a carga horaria de estudo é de grande diferença, mas depois no exercício da profissão a carga horário de trabalho se invertem! Fatooo.

      Responder
  • 14. Ivagner Ribeiro  |  Janeiro 12, 2014 às 5:19 am

    Vou realizar uma comparação entre o professor e o médico. Ambos detém conhecimentos específicos em sua área, ambos são respeitados pela sociedade, ambos têm grandes responsabilidades. Porém, hoje, são poucos que querem a docência e muitos que querem ser médicos. Por quê? A resposta é simples: pagam mal aos professores e muito bem aos médicos.

    A escola funciona em torno do profissional professor, e não do pedagogo, técnico em asssuntos educacionais, técnicos administrativos e demais professores, mas são poucos aqueles que olham para os professores e dizem: eu serei professor também. Mas se os professores ganhassem mais, certamente que teriam muitas pessoas com invejas ou dizendo que nasceram pra docência. Ressalto, que os trabalhos de cada um dos membros na comunidade educativa tem grande importância.

    Quanto à complexidade dos procedimentos, eu duvido que um médico aprenda tudo que tem de aprender sobre enfermagem ou fisioterapia ou farmacologia. Karaka, é muita coisa…então não se trata de mais conhecimento também.

    Desta forma, não há nada de errado quando um enfermeiro, um fisioterapeuta ou um farmacêutico querem ser médicos, eles querem apenas aumentarem seus vencimentos, o que muito natural em nossa sociedade. Terem maior poder de compra. Suas profissões já são respeitadas. Mas estes profissionais ainda não estão ganhando como deveriam. Mas duvido que alguém escreveria essa postagem se a diferença de salários não fosse gritante.

    Os altos salários dos médicos causam em alguns deles um ar de prepotência, que é desnecessário, e causam em muitos profissionais da saúde uma inveja saudável, porque gostaria de ganhar o mesmo, e com razão.

    Mas na nossa sociedade as pessoas são valorizadas muitas vezes pelo salário, e não pelo que fazem somente. Então, espero que os médicos não se iludam com isso, pois se daqui alguns anos as nossas leis mudarem, e o profissional médico começar a ganhar pouco, não será estranho observarmos várias pessoas admirando estes profiissionais, porém ninguém querendo ser médico ou observarmos muitos profissionais afirmando que entraram no campo errado. E o governo criando musicas motivacionais.

    Enquanto isso vamos cantando….A nota de uma partitura, o desenho de arquitetura…tudo vem do professor…

    Responder

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Questionário

Memorando

Interlocutores

  • 108,481 Questionaram

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 284 outros seguidores

%d bloggers like this: