Infeção vs. Dotação

Recortei a imagem seguinte do relatório do inquérito de prevalência de infeção nosocomial de âmbito nacional de 2010 (podem consultá-lo através do microsite do PNCI – link). Atentem!

(em IN leia-se infeção nosocomial)
Bem sei que estes dados não causam surpresa alguma aos enfermeiros. Lanço apenas uma provocação: com dotações adequadas que redução conseguiríamos alcançar nestes números?
Deixo-vos um estudo para aguçar o apetite – Nurse staffing, burnout, and health care-associated infection (link).
There was a significant association between patient-to-nurse ratio and urinary tract infection (0.86; P = .02) and surgical site infection (0.93; P = .04). In a multivariate model controlling for patient severity and nurse and hospital characteristics, only nurse burnout remained significantly associated with urinary tract infection (0.82; P = .03) and surgical site infection (1.56; P < .01) infection. Hospitals in which burnout was reduced by 30% had a total of 6,239 fewer infections, for an annual cost saving of up to $68 million.

Março 28, 2013 at 7:37 pm 1 comentário

Corrupção no SIGIC

Recentemente veio a público a notícia de terem sido detetados pela Inspeção-geral das Atividades de Saúde “vários casos de médicos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que receberam incentivos para a realização de cirurgias no âmbito do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC), mas que as realizavam dentro do normal horário de trabalho” (link). Vergonhosamente, esta realidade não é novidade para quem anda nos meandros dos blocos operatórios desde que foi implementado este sistema de incentivos. O SIGIC tem e teve um papel importante, os seus objetivos são claros e a metodologia transparente, o grande problema é a completa desinibição ética e moral de um, quero crer, pequeno número de profissionais de saúde. Não falamos apenas de médicos, sejamos claros.

Quero, no entanto, relevar algumas considerações do nosso ministro da saúde quando interpelado a propósito:

“Nós estamos a falar, de facto, de verbas indevidamente pagas. Há um conjunto de orientações que foram dadas, quer de instauração de processos disciplinares, quer de orientações concretas aos conselhos de administração – que é quem conhece esta realidade de perto -, quer também o pedido de um novo balanço, no sentido de apurar as responsabilidades e diferenças, que terá de ser entregue ao Ministério da Saúde pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, nos próximos meses”, disse o ministro. […] Questionado sobre possíveis consequências criminais, Paulo Macedo negou, alegando que estão em causa matérias de responsabilidade civil e, eventualmente, de natureza disciplinar.”

Espero que o sr.º ministro não fique pelos processos disciplinares. Entenderá, também, e necessariamente, proceder judicialmente para que o Estado seja ressarcido, bem como instaurar inquéritos e processos disciplinares aos administradores que compactuaram ou permitiram, de forma voluntária ou involuntária, este embuste. Esperemos pelos próximos episódios…

[publicado no Plano de Cuidados]

Março 28, 2013 at 2:29 am Deixe um comentário

Sócrates

[José+Sócrates.jpg]

Simpatize-se ou não com o personagem, julgo ser consensual que este senhor é um monstro do panorama político português. Até aqui nada de novo, tal como o esperado neste regresso à ribalta (link), e de uma assentada, atingiu todos os estrategas do governo, dizimou Cavaco Silva e demonstrou a António José Seguro como se faz oposição.  É impressionante como uma figura tão fragilizada e estereotipada negativamente na praça pública consegue revitalizar-se e abrir velhas feridas. Possa ser ele o eterno responsável da desgraça que aconteceu a Portugal e, nem isso, invalida que quando fala faça tremer toda a oposição, interna e externa. Todo o mediatismo que encerrou o seu regresso não deixa de ser curioso. Por um lado verifiquei que muitos indignados não aceitam a utilização de dinheiros públicos da RTP a financiar os comentários de um ex-Primeiro Ministro negligente, por outro lado, brada-se aos céus pela democracia e vergonha na cara. Ora, se o problema é o dinheiro tenham os indignados a certeza que este será talvez o negócio mais rentável da RTP nos últimos tempos, quanto à democracia e à vergonha na cara vejamos que existe uma panóplia de comentadores em horário nobre, na sua maioria de direita, e com responsabilidades governativas anteriores que também têm culpas no cartório. De facto, o regresso de José Sócrates a Portugal e à televisão constitui a única e irrepreensível forma de encostá-lo à parede e tentar responsabilizá-lo. Serão disso capazes? Será esse o problema?

Março 28, 2013 at 1:25 am Deixe um comentário

Espero que não.

União Europeia morreu em Chipre.

Quando as tropas norte-americanas libertaram os campos de extermínio nas áreas conquistadas às tropas nazis, o general Eisenhower ordenou que as populações civis alemãs das povoações vizinhas fossem obrigadas a visitá-los. Tudo ficou documentado. Vemos civis a vomitarem. Caras chocadas e aturdidas, perante os cadáveres esqueléticos dos judeus que estavam na fila para uma incineração interrompida. A capacidade dos seres humanos se enganarem a si próprios, no plano moral, é quase tão infinita como a capacidade dos ignorantes viverem alegremente nas suas cavernas povoadas de ilusões e preconceitos. O povo alemão assistiu ao desaparecimento dos seus 600 mil judeus sem dar por isso. Viu desaparecerem os médicos, os advogados, os professores, os músicos, os cineastas, os banqueiros, os comerciantes, os cientistas, viu a hemorragia da autêntica aristocracia intelectual da Alemanha. Mas em 1945, perante as cinzas e os esqueletos dos antigos vizinhos, ficaram chocados e surpreendidos. Em 2013, 500 milhões de europeus foram testemunhas, ao vivo e a cores, de um ataque relâmpago ao Chipre. Todos vimos um povo sob uma chantagem, violando os mais básicos princípios da segurança jurídica e do estado de direito. Vimos como o governo Merkel obrigou os cipriotas a escolher, usando a pistola do BCE, entre o fuzilamento ou a morte lenta. Nos governos europeus ninguém teve um só gesto de reprovação. A Europa é hoje governada por Quislings e Pétains. A ideia da União Europeia morreu em Chipre. As ruínas da Europa como a conhecemos estão à nossa frente. É apenas uma questão de tempo. Este é o assunto político que temos de discutir em Portugal, se não quisermos um dia corar perante o cadáver do nosso próprio futuro como nação digna e independente.

Viriato Soromenho Marques, no DN (link).

Março 27, 2013 at 1:35 am Deixe um comentário

Licenciatura

A palavra acima significa precisamente o quê? O seu significado foi alterado ou é suscetível a várias interpretações?

É no mínimo hilariante observar que um daqueles que mais criticaram o programa ‘Novas Oportunidades’ tenha sido licenciado por métodos incomparavelmente redutores quando comparados com a metodologia utilizada por esse programa.

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Julho 20, 2012 at 4:30 am Deixe um comentário

+ Saúde 33

Artigo publicado na edição n.º 163 do Jornal Canas de Senhorim

Abuso de menores e negligência

Comemorámos no passado dia 1 de junho mais um «dia da Criança» e imediatamente surgiram relatórios a denunciar a situação de pobreza por que muitas crianças portuguesas passam. Em contexto de crise económica – não tenhamos dúvidas – são os mais vulneráveis que maiores consequências sofrem, especialmente as crianças e os idosos.

O nosso país tem alcançado resultados fantásticos ao nível da inclusão social, educação e protecção dos mais pobres e dos excluídos, muitas vezes pioneiro na defesa dos direitos das pessoas, mas… poucos meses de crise económica e austeridade podem desferir um sério golpe na sociedade que se pretende coesa.

Aproveitando o mote abordo a problemática do abuso de menores e de práticas negligentes no cuidado à criança. O abuso de menores não se esgota no abuso sexual, engloba maus tratos físicos e verbais, a violência psicológica, entre outros. Já as práticas negligentes correspondem ao abandono da criança, à alimentação deficitária ou inadequada, à escassez de vestuário, à restrição de acesso à educação, à escassez de atenção, carinho, respeito ou até um lar/abrigo.

As perturbações de personalidade ou baixa auto-estima, patologias psiquiátricas e/ou o abuso de álcool ou medicamentos são comuns no agressor ou na pessoa negligente. Por outro lado, a criança pode ser exigente, hiperativa ou possuir alguma deficiência. Além destas possíveis características particulares a agressor e vítima respetivamente, existem uma série de condições que podem despoletar o abuso de menores e a negligência, desde a escassez de apoio emocional da família, dos vizinhos ou dos amigos; à crise económica ou desemprego, até à separação dos pais que pode derivar no abandono por parte de um deles.

O abuso de menores pode produzir mudanças de comportamento visíveis na criança e no adulto que abusa dela e lesões físicas relativamente típicas na criança. Por exemplo, um pai pode parecer indiferente, inclusive quando a criança está ferida de forma evidente, ou pode ter pouca vontade de explicar ao médico ou aos amigos como se deu a lesão. Além disso, a descrição pode variar em cada relato. A lesão pode ser insólita para a idade da criança.

Uma criança que sofre de abusos reiterados pode mostrar fisicamente sinais de lesões novas e antigas. As contusões, as queimaduras, as feridas ou as esfoladelas muitas vezes são evidentes. As queimaduras de cigarros são visíveis nos braços e nas pernas. A criança também pode ter indícios de ossos fracturados.

Uma criança que sofreu abusos sexuais poderá apresentar dificuldades para caminhar ou sentar-se, por alguma lesão física. Pode manifestar-se uma infecção urinária, uma secreção vaginal ou uma doença de transmissão sexual. Muitas vezes, contudo, não existe lesão física aparente. Como a vítima pode encontrar-se sob ameaça se contar a alguém o que aconteceu, os médicos, a polícia e os familiares podem ter dificuldades para ter conhecimento, através dela, do que se passou.

Uma criança abandonada pode ter aspecto de estar mal alimentada, cansada, suja ou carecer de roupa apropriada. Em casos extremos, pode viver sozinha ou com os irmãos, sem a vigilância de um adulto. Em alguns casos, as crianças abandonadas morrem de fome ou por exposições diversas.

Um bebé abandonado ou que sofreu abusos, em geral, não se desenvolve física ou emocionalmente numa proporção normal. Os bebés privados de carinho familiar podem parecer indiferentes ao que os rodeia. A sociabilidade e a facilidade verbal podem ver-se afectadas por uma atenção insuficiente.

O que fazer?
Uma criança que foi vítima de abuso ou que foi abandonada pode necessitar de hospitalização. Os médicos e enfermeiros devem, por exigência legal, denunciar rapidamente os casos de abusos a menores ou em que se suspeite de abandono de uma criança. Encorajamos os cidadãos a apresentar queixa às autoridades judiciais e competentes sobre qualquer tipo de abuso ou abandono de que tenham conhecimento ou suspeita.

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

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Julho 20, 2012 at 4:01 am Deixe um comentário

+ Saúde 32

Artigo publicado na edição n.º 162 do Jornal Canas de Senhorim

Gastroenterite

Gastroenterite é o termo que se aplica a um grupo de perturbações cuja causa são as infecções e o aparecimento de sintomas como perda de apetite, náuseas, vómitos, diarreia moderada a intensa, cólicas e mal-estar abdominal. As gastroenterites não são per si graves, no entanto, os vómitos e a diarreia provocam a perda excessiva de líquidos corporais e, com eles, perdem-se eletrólitos, sobretudo o sódio e o potássio, que podem induzir desiquilíbrios graves e desidratação, especialmente em crianças, idosos e doentes.

As gastroenterites são provocadas por microorganismos presentes na água ou em alimentos em condições de armazenamento e acondicionamento inadequadas ou contaminados por fezes infetadas. O tipo e a gravidade dos sintomas dependem do tipo e da quantidade da toxina ou do microorganismo ingeridos e da resistência da pessoa à doença. Os sintomas começam muitas vezes com perda de apetite, náuseas e/ou vómitos. Podem ocorrer ruídos intestinais audíveis, cólicas e diarreia; pode ter febre, sentir-se fraco, com mialgias e fadiga.

Desta forma, o diagnóstico de gastroenterite é normalmente óbvio a partir da sintomatologia, mas a sua causa não. Por vezes, familiares ou colegas de trabalho estiveram com sintomas semelhantes; outras vezes, podemos relacionar a doença com alimentos inadequadamente cozinhados, em mau estado ou contaminados. As viagens recentes – especialmente a determinados países em que as condições de saneamento e tratamento de águas básico não são adequadas – podem também contribuir para o diagnóstico.

Normalmente, o único tratamento necessário para a gastroenterite é a ingestão adequada de líquidos com ou sem suplemento de sais e açúcares (disponível em solutos de hidratação nas farmácias e parafarmácias). Até uma pessoa que esteja a vomitar deve tomar insistentemente pequenas quantidades de água para corrigir a desidratação, o que por sua vez pode ajudar os vómitos a pararem. À medida que os sintomas melhoram, o doente pode incluir na dieta, gradualmente, comidas moles, como cereais cozinhados, bananas, arroz, compota de maçã e pão torrado. Contudo se os sintomas forem intensos ou durarem mais de 48 horas deve procurar o aconselhamento médico e podem ser examinadas amostras das fezes, procurando a presença de bactérias, vírus ou parasitas. A análise dos vómitos, dos alimentos ou do sangue também pode ajudar a identificar a causa. Como os antibióticos podem provocar diarreia e favorecer o crescimento de organismos resistentes aos mesmos, raramente é apropriado o seu uso, mesmo no caso de ser uma bactéria conhecida que esteja a causar a gastroenterite.

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

Julho 20, 2012 at 3:58 am Deixe um comentário

+ Saúde 31

Artigo publicado na edição n.º 161 do Jornal Canas de Senhorim

O Serviço Nacional de Saúde: a sua sustentabilidade e a utilização responsável de recursos.

Com o advento da crise económica que atravessa o nosso país a saúde não escapou nem escapará aos cortes dramáticos, o que não é agradável nem tampouco popular. De facto a ordem do dia é racionalizar, e se existem áreas onde isso é, porventura, impossível a saúde, em concreto o Serviço Nacional de Saúde (SNS), não é uma delas. O SNS foi e será um projeto da democracia, um pilar de sustentação do cidadão português, uma mais-valia inestimável, no entanto, racionalizar é assegurar que ele se mantenha firme e sustentável garantindo que as gerações vindouras também possam dele usufruir.

Os profissionais de saúde bem sabem que existem lacunas a corrigir, gastos excessivos e gestão ineficaz, e são eles quem melhor enuncia o caminho para a racionalização de recursos no SNS. Ultimamente temos observado vários movimentos de utentes e profissionais de saúde em luta contra o encerramento de determinado urgência ou determinado hospital, essa é porém a via mais fácil, não que seja condenável tendo em conta os hábitos de saúde das pessoas e as rotinas e experiências adquiridas pelos profissionais em determinado hospital ou serviço específico, no entanto, em si estas lutas promovem precisamente o contrário do seu objetivo último.

Quando assegurar a sustentabilidade do SNS passa por encerrar determinados hospitais que, das duas uma, ou não cumprem os seus objetivos ou replicam ofertas numa determinada área geográfica, lutar contra esse encerramento é o mesmo que lutar contra a sobrevivência do SNS. Desde que se garanta o acesso aos cuidados de saúde a toda a população esta gestão de recursos é indispensável.

Não quero, deste modo, defender a política de saúde atual ou pelo menos toda ela, mas devo frisar que o caminho que está a ser seguido é, na generalidade, aceitável e necessário.

A racionalização de recursos não passa apenas pelo encerramento de unidades, mais importantes ainda são a sensibilização dos profissionais de saúde, a política dos recursos humanos e a informação aos cidadãos. O Governo, especificamente, o Ministério da Saúde peca por não auscultar os profissionais de saúde envolvidos nas transformações ou por não incentivar a discussão pública à priori, desse modo conseguiria alcançar consensos e melhores soluções.

Existe ainda um longo caminho a percorrer na sensibilização e informação dos portugueses, seja na área do medicamento onde proliferam consumos excessivos; no acesso às urgências hospitalares que é anárquico; na utilização do sistema de emergência médica pré-hospitalar; ou, ainda, na utilização dos cuidados de saúde primários.

A política de recursos humanos é, na linha de atuação do governo no que toca ao emprego, catastrófica, existem profissionais desmotivados e sobrecarregados. A carência de recursos humanos em saúde é um exemplo de má política e se, em alguns casos, essa carência resulta da parca oferta formativa, noutros casos ela resulta meramente de políticas de gestão erradas. Se os recursos humanos do SNS fossem reforçados a qualidade dos cuidados de saúde prestados melhorava exponencialmente e teria repercussões nos ganhos em saúde e na prevenção da doença, daí que mais recursos humanos pode significar menores custos, seria rentável.

Os cuidados de saúde primários também não têm sido suficientemente valorizados, é neles que reside a maior quota de ganhos em saúde potencial, uma maior aposta nos cuidados de saúde primários e a sensibilização das populações para a sua utilização permitiria reduzir drasticamente a doença e a utilização dos hospitais.

Saiba, a título de exemplo, que recorrer a uma urgência polivalente de um hospital central (ex.: urgência do Hospital São Teotónio – Viseu) custa, aos cofres do Estado, sensivelmente o triplo (ronda os 150€) do que recorrer a uma urgência básica (ex.: Hospital Cândido de Figueiredo – Tondela), ou dez vezes mais do que recorrer ao SAP de Nelas. Pense duas vezes quando necessitar de recorrer a uma urgência, pode ser atendido com a mesma qualidade e com maior rapidez numa urgência de tipologia inferior e está a poupar dinheiro aos contribuintes.

Um outro hábito – fundamental – que ainda não está suficientemente enraizado é a utilização da linha Saúde 24. A linha Saúde 24 é uma linha telefónica que fornece toda a informação necessária em caso de doença, desde os primeiros cuidados a ter, ao hospital mais adequado à sua situação específica e até a referenciação ao hospital, sendo que, antes de você chegar o hospital já estará informado da sua chegada.

Pela sobrevivência do SNS, utilize-o racionalmente!

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

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Julho 20, 2012 at 3:53 am Deixe um comentário

+ Saúde 30

Artigo publicado na edição n.º 160 do Jornal Canas de Senhorim

Tuberculose

Desde muito cedo sinto o estigma associado a diversas doenças, estigma tal que ostraciza a vítima dessa doença ao ponto de culpabilizá-la por algo que ela, muitas vezes, não conseguiria evitar. Este quadro é uma das pinturas mais aterradoras no panorama da saúde se nos lembrarmos que a pessoa doente é uma pessoa fragilizada e não merece, nem de longe nem de perto, qualquer tipo de estigma, preconceito, segregação ou exclusão.

Urge informar para a saúde contribuindo para erradicar o estigma associado a doenças, principalmente no que toca às doenças infeciosas, transmissíveis ou à doença mental. Dito isto, em jeito de declaração de interesses, avancemos para o tema central. À data que escrevo assinala-se o Dia Mundial da Tuberculose (24 de março) e é dela que vamos falar.

Saiba, caro leitor, que só em 2010, «quase nove milhões de pessoas ficaram doentes devido à tuberculose e 1,4 milhão de pessoas morreu devido à mesma causa» no mundo? (dados da OMS). Estes números fazem da tuberculose a doença infeciosa mais letal para a população adulta em todo o mundo. O desafio lançado neste dia internacional: “Erradicar a tuberculose na nossa geração”, é uma meta tão ambiciosa como necessária. Esperemos que se torne realidade.

A tuberculose é uma doença infeciosa causada por um micróbio – o bacilo de Koch* -, transmite-se de pessoa para pessoa e atinge principalmente os pulmões. Dos sintomas destacam-se a tosse crónica, a febre, a persistência de suores noturnos, dores no tórax, a perda de peso lenta e progressiva, a falta de apetite e a apatia.

A transmissão da doença ocorre através da respiração, que faz penetrar o bacilo de Koch no nosso organismo, ou seja, quando uma pessoa com tuberculose tosse, fala ou espirra, espalha no ar gotículas que contém o bacilo e uma pessoa saudável que respire o ar desse ambiente pode infetar-se.
Na maioria das vezes o organismo resiste e a pessoa não adoece, o indíviduo torna-se portador do bacilo e quando fragilizado por outra doença, como o cancro, a diabetes, a sida  ou alcoolismo, acaba por não resistir. Os doentes com tuberculose que já estão a ser tratados não oferecem perigo de contágio porque a partir do início do tratamento este risco vai diminuindo dia após dia e estima-se que quinze dias depois de iniciado o tratamento o risco de contágio seja nulo.

Como em todas as doenças, a prevenção é a arma mais poderosa e, neste caso, é feita através da vacina BCG, que é aplicada nos primeiros 30 dias de vida e capaz de proteger contra as formas mais graves de tuberculose.
A tuberculose deve ainda tratar-se, o mais precocemente possível, para que o contágio não prolifere. O tratamento deve ser acompanhado pelo médico de família do seu centro de saúde. Se uma pessoa com tuberculose não procurar ajuda e se não for tratada atempada e convenientemente, a probabilidade de vir a morrer na sequência da doença é muito elevada. Por outro lado, quando um doente abandona ou interrompe o tratamento que lhe foi prescrito, aumenta também a probabilidade de vir a morrer da doença, uma vez que possibilita o aparecimento de novos bacilos de Koch, resistentes aos medicamentos atualmente usados para o tratamento e controlo da tuberculose.

Não se esqueça…
O estigma não trata, não cura e não previne. Se conhece, informe-se. Se sente, procure ajuda.

*Koch – Robert Koch foi o médico alemão que identificou, em 1882, o bacilo da tuberculose. Este médico viria a receber, em 1905, o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina por essa descoberta e o bacilo da tuberculose ficou conhecido por bacilo de Koch em sua homenagem.

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

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Julho 20, 2012 at 3:49 am Deixe um comentário

+ Saúde 29

Artigo publicado na edição n.º 159 do Jornal Canas de Senhorim

Colecistite

A «pedra» na vesícula!

É muito comum ouvirmos alguém queixar-se de «pedra» na vesícula e já nos questionámos várias vezes que pedras são essas, certo? É com esse objetivo que escrevo hoje, elucidar-vos quanto à colelítiase e à colecistite bem como aos mecanismos associados a estas patologias.
Em primeiro lugar vamos perceber que a colelítiase é o termo técnico para definir a «pedra» ou os cálculos na vesícula biliar e a colecistite é uma inflamação da vesícula biliar que pode estar associada à obstrução da mesma pelos tais cálculos, «pedra» ou lítiase, todos termos que definem a mesma entidade.
A vesícula biliar, por sua vez, não é mais do que um depósito de bílis que é um líquido produzido pelo fígado, constituído por bicarbonato, colesterol, pigmentos e água; com a função de auxiliar na degradação de gorduras, sendo por isso drenada para o intestino durante a digestão. Quando não ocorre  digestão ela fica armazenada na vesícula biliar.

Assim sendo, como é que surge a colelítiase, a «pedra» na vesícula?
Essencialmente a lítiase pode surgir por duas vias, a carência de água  ou o excesso de colesterol na bílis e existem uma série de fatores que contribuem para isso, tais como: a idade (o risco de desenvolver colelítiase é 4 vezes maior após os 40 anos), o sexo (sendo mais comum em mulheres graças aos níveis de estrogénio, pelo que pode ocorrer durante uma gravidez), a obesidade, diabetes, cirrose hepática, jejum prolongado, sedentarismo, doença de Crohn e anemia falciforme.

Facilmente percebemos que a melhor forma de a evitar é efetuar uma alimentação pobre em gorduras, não fazer jejuns prolongados entre refeições, beber água e praticar exercício físico mas… ou nós não prevenimos ou isso nem sempre é suficiente, não é verdade?

Quando surge a lítiase temos as suas complicações. O sintoma principal associado à lítiase é a dor intensa do lado direito do abdómen – a cólica biliar – que ocorre de uma forma intermitente e normalmente após a ingestão de alimentos. Esta dor funciona como um sinal de alarme, indica-nos que existe «pedra» na vesícula, e com ela – a colelítiase – o risco de colecistite aumenta drasticamente.

A colecistite, como disse, não é mais do que uma infeção da vesícula biliar que ocorre por retenção de bílis e disseminação de bactérias, esta retenção pode ser causada por jejum prolongado ou outras entidades patológicas; e por obstrução causada pela lítiase, o que corresponde a cerca de 80% dos casos.
Ao contrário da cólica biliar onde a dor é limitada e desaparece após o relaxamento da vesícula fora dos períodos de alimentação, na colecistite a dor é constante e mais forte e pode associar-se a vómitos e febre.

É fundamental sabermos identificar os sintomas compatíveis com uma colecistite porque este quadro necessita de intervenção precoce para evitar complicações graves.

O tratamento mais comum é a colecistectomia (remoção da vesícula biliar) e pode ser realizada por cirurgia aberta ou por video-laparoscopia. Normalmente não ocorrem complicações após a cirurgia e a pessoa terá apenas que evitar o consumo excessivo de gorduras.

Não menospreze! A «pedra» na vesícula pode tornar-se uma emergência médica que necessita de uma resolução imediata.

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

Julho 20, 2012 at 3:46 am Deixe um comentário

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