A puta espanhola!

Julho 8, 2006 at 7:24 pm 5 comentários


Caso de violação de uma prostituta, Ana Garcia, relatado pelo Projecto Arrimo (projecto de intervenção de rua), no bairro de S Joao de Deus, Porto.

Ana Maria Gonçalves Garcia, 32 anos, com consumo de opiáceos marcados, prostituta.

Dia 11 – Ana Garcia dirige-se ao Projecto e queixa-se de ter sido violada por um homem, frequentador do bairro e ligado ao tráfico de drogas. Segundo Ana Garcia, estava num descampado quando ele a “apanhou por trás” e a violentou, sem que houvesse penetração, deixando-a ferida e com dores violentas. Não quis denunciar a situaçã porque, segundo ela, ninguém iria querer saber do acontecido a uma puta toxicodepente! Como se diz na gíria popular “enrabam-nos e calamo-nos. Que se foda, há-de haver alguém pior…”
À noite a equipa do projecto Arrimo voltou a encontrá-la: estava de tal maneira ferida que não conseguia urinar ou defecar, nem em condições de “trabalhar”, mas mantinha-se com medo e não queria fazer a denúncia.

Dia 12 – A equipa do Arrimo tenta encontrar a Ana sem êxito. Deveria ser encaminhada, contactado o Drº Gonzaga do CAT Oriental, ela iria iniciar o programa de metadona enquanto estivesse em regime de internamento ou acolhimento.

Dia 13 – Contactada a APAV pela Drª Eduarda Ferreira, adj do Delegado de Saúde do Porto, foi exposta a situação da Ana, foi aconselhado o contacto e a denúncia para o DIAP apenas quando esta mulher estivesse em segurança, abriu-se um processo; recomendou-se contactar o “144” em caso de urgência, mas omitir o facto desta mulher ser prostituta.


Dia 13 (15 horas) – A Drª Eduarda contacta a Drª Noémia do Arrimo para a informar. Continuam a procurar a Ana e irão proceder conforme sugestão da APAV. Note-se que a Drª Eduarda (adj do delegado de saúde do Porto) é uma das pouquissimas peças declaradamente interessada na procura de soluções para este caso.

Dia 17 – A Ana foi encontrada e levada para o Hospital de Santo António onde apresentou queixa junto da PSP. O nome verdadeiro desta mulher, acabado de descobrir, é Luísa Valverde. Luísa foi observada pelo médico do Instituto de Medicina Legal. A linha de emergência social (144) foi contactada e a Luisa foi encaminhada para a Residencial Portuguesa, na travessa Coronel Pacheco – Porto, mas para isso, foi necessário serem feitas várias chamadas e a chamada passou por pelo menos três técnicos, que repetiam as perguntas, fazendo com que esta mulher repisasse o caso de violação. – a Luisa ficou desanimada e desesperada com o modo como parecia estarem a duvidar da sua situação.

Dia 18 – A Drª Carina da APAV contacta a equipa da Arrimo para referir que ainda não havia local para esta mulher (ironicamente, podemos considerar um elogio chamar-lhe mulher… na nossa sociedade e para ela, seria um carinho). É sugerida a Casa de Abrigo de Pisão – Penafiel (e fornecido o contacto da responsável, Drª Rosa Fernandes). A Drª Edite telefonou: sem êxito, ficando a APAV de a contactar pelas 16 horas. A Drª Eduarda Ferreira tenta a articulação com a Comissão para a Igualdade das Mulheres para expor esta situação, a Drª Teresa Carvalho tomou nota da situação e prontificou-se a verificar se a instituição “O Ninho” teria lugar para esta mulher. A Drª Eduarda contacta o Núcleo Oriental de Segurança Social, a Drª Laura Alves referiu que o problema saía da sua área de intervenção, uma vez que se tratava de uma mulher sem abrigo e a linha de emergência tinha sido accionada, passando a pasta ao “144”. No entretanto a Drª Edite, do Arrimo avisa que a Luisa havia sido mandada embora da Residencial por um técnico da Segurança Social: pela manhã, a Drª Gabriela, do “144”, telefonou-lhe, referindo que o “estado estava a ter muita despesa com esta mulher” pelo que enviou o técnico no sentido de a encaminhar para o Arrimo e fazer o pagamento do quarto. A Drª Edite, do Arrimo telefona para a residencial e confirma que a Luisa havia sido mandada embora. Como era de esperar, a Luisa não tinha aparecido no bairro S Joao de Deus, onde se localiza o projecto Arrimo. A Drª Eduarda Ferreira contacta a APAV para que se registasse esta ocorrencia no processo de Luisa; volta a contactar com a Drª Laura do Nucleo de Segurança Social, para lhe solicitar colaboração no sentido de contactar a coordenadora da linha de emergência social: deram-lhe o nome e os contactos telefónicos (Drª Lurdes Guimarães – 22 507 25 23/4/9/0). tentou-se estabelcer o contacto entre as 16 e as 18 horas da tarde, mas sem êxito, mais uma vez. Colocada a Drª Teresa Carvalho, da Comissão para a Igualdade das Mulheres, ao corrente da nova situação, por outro lado a Drª refere que a instituição “O Ninho” não acolhe toxicodependentes, mesmo em programa de metadona, mas haveria um local para acolhimento de Luisa na GAF de Viana do Castelo sendo necessário que a Segurança Social assegurasse o pagamento do quarto. Falta encontrar a Luisa novamente. Ninguem atende nos números de telefone da Drª Lurdes Guimarães. A Drª Edite relata que foi contactada, por telefone pelo “144”, a justificar a atitude tomada em relação à Luisa por não terem entendido bem a gravidade do caso, enfim… !!!

Dia 19 – A Luisa é encontrada e o projecto Arrimo estava a tentar arranjar um local de acolhimento. A Drª Lurdes Guimarães finalmente telefona e diz que houve “ruído” no tratamento deste caso o que, condicionou a intervenção… !!! Vai entrar em contacto com a Drª Edite para se arranjar alojamento mesmo para esta noite, à Luísa.

Dia 20 – A Drª Lurdes assegura o acolhimento por tres dias para a Luisa. A Drª Edite consegue acolhimento para a Figueira da Foz – Caritas; a deslocação ainda não está assegurada.

Dia 24 – A Drª Edite consegui o transporte com a colaboração do IDT (Instituto das Drogas e da Toxicodependencia): nem a segurança social, nem a APAV, prestaram colaboração.

Dia 1 – A Drª Edite refere que a Luisa está na Figueira da Foz, a instituição está alarmada porque foi informada que a Luisa tem tuberculose com risco de contágio.

“Não basta a situação de besta de ter que encarar quem não se deseja por mais que o desejo seja, por definição pelo menos, voluntário. Não basta não se desejar ser quem se é. Não basta a condição de subjugada ser encarada como perfeitamente normal e quotidianamente comungada. Não basta ter que vender a parte formal, carnal, se quisermos já agora o corpo, para que alguém tenha que se safar perante vivências que não escolheu mas para as quais foi escolhida. Não basta o capitalismo que dita que por dez ou trinta euros se entregue uma parte de nós, um refúgio para penetração inerte que não paga nem apaga o nojo.
Basta de violência, basta de inoperância por parte de quem é pago para fazer algo para o travar, basta de indiferença da parte de quem social e moralmente deve, pelo menos, um contributo.
Estamos abastados com tanta abestidão…”

Adaptado, in Dependências, Abril de 2006

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Entry filed under: Cultura, Politica, Saúde.

São Teotónio Riscos

5 comentários Add your own

  • 1. Achadiça  |  Julho 11, 2006 às 3:46 pm

    dói-me imenso ser confrontada com estas ocorrências…começo a pensar… a doutora x ganha 3000€, a Y outro tanto, a z ainda mais, o sistema gasta o nosso dinheiro ao desbarato e não se consegue organizar nem dar resposta capaz a estas situações… o que é que se passa com este país e com as suas gentes? sempre à beira da catástrofe…

    Responder
  • 2. un_identified  |  Julho 13, 2006 às 4:31 pm

    VERGONHA

    Uma palavra só.
    Cumprimentos!

    Responder
  • 3. canasvirtual  |  Julho 16, 2006 às 2:10 pm

    É muito complicado!…

    Responder
  • 4. Manuel Martins  |  Julho 21, 2006 às 3:37 am

    Sou deficiente… com 80 e tal %, nem sei ao certo.
    Por isso, de tudo o que li infelizmente nada estranhei. Estou farto, fartíssimo de ver gente a viver à grande e a viajar á pala da minha deficiência. Há gente e departamentos para tudo e isto não é teoria, estão lá, recebem vencimentos, mas não fazem nada, são monos, são inúteis…existem para eles mesmos, virados para dentro deles próprios. Não sei se é porque não podem ou não sabem, mas não fazem… os telefonemas entram em circuito, passa para aqui, depois para ali, pedem-nos para expor, para mandar mail … tanta incompetência, tanta insensibilidade …
    A evolução de uma sociedade mede-se acima de tudo pelo que faz pelos seus desafortunados. Somos realmente um país atrasado…
    Sabiam que eu enquanto deficiente em cadeira de rodas não tenho acesso ao edifício onde está instalado o SNRIPD – Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com deficiência? Não é piada, é verdade !!!

    Responder
  • 5. un_identified  |  Julho 26, 2006 às 3:24 am

    Sr Manuel Martins agradeço o seu testemunho, e espero que se avizinhem dias melhores para si, para nós, para todos.

    Realmente, neste país há coisas que não lembram ao diabo!

    cumprimentos!

    Responder

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