O dia

Janeiro 29, 2009 at 12:28 am 2 comentários


Começo o dia com um despertar obrigado e teimoso, um acordar sedento de vontade e faminto de força. A coluna cervical ainda me sussurra ao ouvido, num tom irónico e cínico, insurgindo-se contra o tratamento que lhe dediquei no dia anterior. Ignoro-a, votando-a à esperança de um dia diferente.

Abro a porta e, desta vez, o carro, grita ele com um pneumático carente do ar que respiro, sinto a pena que ele sente, hoje não me vai dirigir na jornada a que o habituei nos últimos tempos. Parado no tempo terá o seu merecido descanso, alvo de inveja das vértebras que criticam, promiscuamente, nos becos do meu dorso.

Não serei fielmente conduzido pelo meu companheiro de viagens, mas sou transportado pelo homólogo da minha homóloga. Dois minutos me separam da rotina diária, que poucas inconfidências revela cometer, fiel à água que cai do céu e à música que passa na telefonia.

Entro. Alcanço os metros quadrados onde consumo os próximos 480 minutos da minha vida. Não são só 8 horas, são 480 minutos da minha vida, 28800 segundos dela, que estoicamente tento partilhar com quem me debato. Umas vezes tarefa fácil, outras menos, regra natural que dita a relação inter pares.

Por vezes, tento resgatar o meu corpo para onde a mente havia fugido há muito, livre de tristezas, acalmando o desespero, cegando a má vista. Por vezes, ensurdeço os meus ouvidos sem lhes dar alternativa, canso-me de lhes explicar que é para o bem comum.

Difícil compreender? Não, díficil de materializar. Não é uma experiência arrogante mas um esforço sui generis que resulta na reflexão de outrém.

Acabo o dia confortando o corpo em boa maré, com tempo para passar pela felicidade e esperança, algo que caço sem tiro nem perseguição, no seio da minha família. Tropeço com azar, ou sorte quando reflicto, pelo cepticismo também. Alto, voltou. Algo que é motivo de resgate da minha materialização térrea, mas não, desta vez não há benefício de outrém, não corro, paro e olho. Penso, comungo de ideias, revejo Saramago, observo os calafrios do Mundo, nasce um grito de revolta em comunhão com uma esperança, que por mais ínfima que seja, mantém acesa a vela derrotando o vendaval.

Deito-me, os discos intercalares afagam as vértebras que remoem o facto de as ter obrigado a trabalho demasiado, conto-lhes uma história de García Márquez que não tinha concluído no outro dia, O Amor nos Tempos da Cólera, adormecem. Eu sonho nesse amor nos tempos de hoje.

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Entry filed under: Cultura, Saúde.

Pílula CGE

2 comentários Add your own

  • 1. Alguem  |  Abril 30, 2009 às 12:54 am

    Em primeiro lugar, quero felicitar-te pelas palavras descritas neste breve texto, pelas ideias transmitidas, pelos sentimentos expressados, pelo seu todo. Sem dúvida, uma reflexão pessoal de um dia, no meio de tantos outros 60 dias. Um texto cativante, que dá prazer de ler repetidas vezes sem conta.
    Cada palavra que leio, tem para mim um significado diferente do que para qualquer outra pessoa que o possa ler ou ter lido…
    Aconteceu comigo, numa antiga casa, fria, um cantinho se formou. Reunia felicidade, amor, carinho… Deixa saudade, aliás… muita saudade. Pois nada voltou a ser como naquela época, que apesar de um grito de revolta que soava por vezes, chego á conclusão que não poderia ter sido melhor. Certamente quase “x” anos de existência, resumiram-se a “x” meses de demonstrações, atitudes e valores jamais esquecidos e nostalgicamente recordados.
    A última frase fez-me pensar… “Eu sonho nesse amor nos tempos de hoje.” Sonhar com um amor?! Com esse amor?! Talvez aí esteja a resposta para um conjunto de tantas situações… O sonhar não basta, interessa agir, ter atitudes, demonstrá-las… lutar… aproveitar as oportunidades… acreditar… Um amor não se deve deixar escapar por entre as mãos, debaixo do próprio nariz, por mero capricho… Ou, então, caso ainda não se tenha encontrado esse tão desejado amor, deixar-se acomodar pela monotonia do dia-a-dia.
    Afinal, a expressão “minha homóloga” é linda… mas apenas se for referida, sentindo o seu verdadeiro significado, o seu verdadeiro valor…
    Gostei de poder partilhar a minha opinião e de ter tido o prazer de ler e relembrar tão significativas palavras.
    Felicidades!

    Responder
    • 2. Daniel Rodrigues  |  Maio 2, 2009 às 4:17 am

      Muito obrigado pelo elogio.

      Quanto a:
      “um grito de revolta que soava por vezes” – talvez esse grito seja o sinal de alarme, algo estava mal? ou algo estaria a acontecer?

      “um amor nao se deve deixar escapar por entre as mãos, debaixo do próprio nariz, por mero capricho…” – precisamente, faço minhas as suas palavras se mo permite!

      E por fim:
      A expressão “minha homóloga” foi realmente sentido e valorizada!

      Cumprimentos e volte sempre!

      Responder

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