A Alemanha e a Zona Euro

Abril 29, 2010 at 3:27 pm Deixe um comentário


Um excelente artigo, a ler aqui (link) – reproduzo na íntegra (destaques meus):

Reticente quanto à ajuda a conceder à Grécia para lhe resolver o défice, ameaçando excluir os países menos cumpridores da Zona Euro, a maior economia do continente não tem interesse que a moeda única se afunde. Com efeito, sem o euro, a Alemanha atravessaria uma crise sem precedentes.

Em tempos, os alemães preferiam dizer-se europeus do que alemães. Foi numa época em que a união da Europa parecia um objectivo intangível. Esse período passou, indubitavelmente. Após a reunificação, os alemães reaprenderam a ter orgulho. Mas de quê? Hoje, à mínima iniciativa segue-se a pergunta: o que vamos ganhar com isso? Os antigos amigos do projecto europeu já se habituaram a isso.

O actual debate em torno da crise grega, o arrazoado e os relentos nacionalistas que o acompanham, foram já longe de mais. A arrogância dos nossos deputados, dos nossos burocratas e dos nossos ministros, que fazem passar os gregos por imbecis, corruptos e preguiçosos, ultrapassa a insolência.

A estratégia da chanceler, que apenas incita os especuladores a subirem as taxas de juro até que a falência se torne inevitável, é da mais completa irresponsabilidade perante os nossos parceiros europeus. E tudo isso apenas devido a eleições regionais na Renânia do Norte-Vestefália!

Retomem os vossos queridos marcos e deixem a França tomar as rédeas da Europa

Esta estreiteza de espírito, esta incapacidade de reflectir e de se interrogar sobre se, com o seu comportamento, a própria Alemanha não terá contribuído para fazer aumentar as pressões sobre o euro, mostram claramente uma coisa: os problemas da moeda europeia vêm menos da Grécia do que do pretenso bom aluno alemão.

Saiam então do euro! – apetece dizer aos neo-nacionalistas. Retomem os vossos queridos marcos e deixem a França tomar as rédeas da Europa. Regalai-vos com o vosso sentimento de superioridade! A euforia durará pouco, é garantido. Porque o que acontecerá mal a Alemanha saia do euro?

A revalorização do marco colocaria a moeda alemã 30% acima do euro. Esses 30% constituiriam uma enorme vantagem concorrencial para as indústrias francesas e italianas, bem como para as belgas, holandesas e eslovacas. Aproveitando um espectacular crescimento das suas exportações, os outros países europeus poderiam finalmente prosperar, sem a Alemanha. Mais pragmáticos que os alemães em matéria de reequilíbrio das finanças, os franceses, que acreditam, com razão, que mais vale investir no crescimento do que reduzir nas despesas, assegurariam à Europa vários anos de prosperidade.

Alemanha tão imperfeita como a Grécia

E entretanto, o que fariam os alemães com o seu novo marco? Ficariam numa situação catastrófica. O regresso do marco tornaria o “made in Germany” demasiado caro e as exportações cairiam a pique. Tudo o que a França e o resto da Europa exportarem a mais seria o que as empresas alemãs deixariam de ganhar, tão simples como isso. O desemprego aumentaria, assim como a dívida pública, acrescida dos subsídios a pagar. O crescimento alemão, que repousa exclusivamente sobre as exportações, sufocaria. Para o custo da mão-de-obra não aumentar, tornar-se-ia inevitável o congelamento dos salários. E ao fim de alguns anos, chegaria o tempo das privações.

O regresso do marco levantaria igualmente uma onda de pânico na banca e nos seguros. A diminuição de 30% do valor de todos os activos europeus pode representar uma perda de cerca de 200 mil milhões de euros nesses sectores. Seria necessário organizar uma segunda vaga de salvação da banca, o que apenas agravaria a situação da dívida pública. Porquê 200 mil milhões de euros de perdas suplementares? Porque desde a introdução do euro, a Alemanha adquiriu quase 600 mil milhões de euros de activos no estrangeiro (graças aos enormes excedentes das suas exportações).

Moral da história? A Alemanha é tão imperfeita como a Grécia. Aquilo que alguns aproveitaram em demasia – devido aos aumentos de salário – acabou por faltar a outros. Só juntos poderemos resolver os problemas da Zona Euro. Um crédito de 9 mil milhões de euros de ajuda à Grécia nada não é comparado com o egoísmo da Alemanha. Quer se trate de Atenas ou Berlim, qualquer saída do euro – voluntária ou compulsiva – está fora de questão.

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