+ Saúde 10

Julho 21, 2010 at 4:30 pm Deixe um comentário


Artigo publicado na edição n.º 139 do Jornal Canas de Senhorim

Hepatite

Não será tarefa fácil falar de hepatite – ou melhor, hepatites – em tão poucas linhas, com uma hermenêutica comum, destacando modos de transmissão da infeção e desmistificando a ameaça dessas patologias. É este o desafio! Sem querer desresponsabilizar as pessoas com hepatite, urge combater a trivial discriminação a que elas são submetidas.

Comecemos por saber o que são hepatites. Hepatites são inflamações no fígado que podem ser provocadas por bactérias, por vírus (daí resultam os seis tipos diferentes de hepatites – A, B, C, D, E e G) e também pelo consumo abusivo de tóxicos – como o álcool, medicamentos e algumas plantas. A hepatite dependendo do agente causador pode curar-se apenas com repouso, com tratamento prolongado ou mesmo com transplante de fígado, em casos de complicações graves que podem ter repercussões fatais.

Os vírus da hepatite podem ser transmitidos através da água e de alimentos contaminados com matérias fecais (caso das hepatites A e E), pelo contacto com sangue contaminado e/ou por via sexual (hepatites B, C, D e G). Após contraírem a infeção, as pessoas podem permanecer durante um período variável sem qualquer sintoma – período de incubação – e nem todas as hepatites se tornam crónicas. Atualmente, existem vacinas contra as hepatites A e B, o que permitiu reduzir drasticamente a sua propagação, cenário que pode ainda melhorar com o aparecimento da vacina contra a hepatite C, que se encontra em desenvolvimento.

Posto isto, como devemos conviver com uma pessoa com hepatite? Os modos de transmissão da doença impõem tão só a necessidade de medidas de precaução, o que é, todavia, diferente de medidas de afastamento, exclusão ou discriminação.

Quando uma pessoa tem hepatite A ou E (vírus transmitido por água ou alimentos contaminados com matérias fecais) os seus pares devem ter cuidados de higiene redobrados – tais como, não partilhar loiça e talheres, desinfetar os sanitários com líxivia e lavar sempre as mãos após qualquer contacto com a pessoa e/ou com os seus objetos.

Em caso de hepatite B aguda (transmissão por contacto sexual ou sangue contaminado) raramente é necessário tomar qualquer medida em relação ao agregado familiar, no entanto, cabe à pessoa doente tomar precauções quanto ao seu parceiro sexual.

No caso de hepatite B crónica (transmissão por contacto sexual ou sangue contaminado) o parceiro sexual deve ser vacinado e se o portador for criança os seus irmãos devem, de igual modo, ser vacinados. Caso a família esteja toda vacinada, não é necessário tomar outras precauções.

Em relação às hepatites C, D e G (transmissão por contacto sexual ou sangue contaminado), a prevenção passa por não partilhar objetos que estiveram em contacto com o sangue do doente, bem como a prática de comportamentos sexuais responsáveis que irei abordar adiante.

Todos os cuidados e precauções referidos são, não só da responsabilidade das pessoas que rodeiam o doente, como da sua própria responsabilidade. A pessoa infetada deve ter uma atitude proactiva capaz de prevenir a transmissão da doença e propiciar um clima de segurança aos seus familiares e amigos.

Por outro lado, existem uma série de cuidados e deveres da exclusiva responsabilidade da pessoa com hepatite, principalmente no que toca à vida sexual e gravidez. Apesar de não existir qualquer impedimento para um doente com hepatite crónica ter uma vida sexual ativa, ele deve ser responsável e responsabilizado para anular comportamentos de risco. O uso de preservativo é o único meio capaz de evitar a contaminação do parceiro com o benefício de evitar, concomitantemente, outro tipo de infeções sexualmente transmissíveis. O uso de contracetivos orais não está contraindicado em doentes com hepatite crónica vírica, no entanto lembre-se que estes não protegem contra a transmissão da infeção, a sua ação centra-se apenas na inibição da gravidez. No que respeita às hepatites A e E, os casos de contágio sexual são raros e não provados, respetivamente, mas deve evitar-se o sexo oral e anal.

Quanto à gravidez, é fundamental que a pessoa com hepatite tenha, à semelhança do que acima descrevi, uma atitude responsável. A descoberta da doença durante a gravidez implica o seu tratamento, a verificação de cura espontânea e/ou a cronicidade da doença. Isto porque, apesar de os riscos para o feto serem limitados – a maioria dos vírus da hepatite não atravessam a barreira criada pela placenta e não existem riscos de malformação nem de parto prematuro – há exceções. O vírus da hepatite E quando contraído pela mãe durante o terceiro trimestre de gestação pode provocar hepatite fulminante e é responsável por uma taxa de mortalidade que ronda os 20%. No caso da mãe ser portadora do vírus da hepatite B, a criança é vacinada à nascença, podendo depois ser alimentada com o leite materno. Nos casos da hepatite C e G não são conhecidos, até agora, riscos no aleitamento exceto se existirem cortes ou feridas nos mamilos e na boca do bebé – situação que implica a suspensão do aleitamento materno.

Por fim algumas considerações quanto à alimentação da pessoa com hepatite. É certo que não há necessidade de um regime dietético especial desde que a pessoa tenha uma alimentação saudável e variada que lhe forneça um aporte vitamínico e proteico adequado. No entanto, numa fase avançada da doença, onde podem ocorrer complicações graves como a cirrose hepática e/ou cancro do fígado, pode ser necessário efetuar uma restrição de sal, gorduras e álcool (este último, totalmente desaconselhado na fase de tratamento); pelo que deve recorrer a aconselhamento médico.

[Escrito de acordo com o novo acordo ortográfico.]

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.

Daniel Rodrigues

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