+ Saúde 13

Outubro 9, 2010 at 4:23 pm Deixe um comentário


Artigo publicado na edição n.º 142 do Jornal Canas de Senhorim

Cocaína, conhece?

Este é um artigo para ler até ao fim. Perceba porquê!

De substância medicinal a produto sagrado, o consumo da folha de cocaína data de 2500 a.C., consta que depois da descoberta da América, a substância despertou sentimentos ambíguos entre os conquistadores. Se por um lado, era proibida, por outro, era incentivada pelos benefícios que trazia, permitindo que os índios trabalhassem sob os efeitos da mesma.

Desde aí abundam as referências à utilização da coca. Quando em 1858, Nieman e Wolter isolaram a substância da cocaína, despoletou-se a comercialização em grande escala, a cocaína chegou a ser ingrediente do vinho tónico de Angelo Mariani e da Coca-Cola durante dezassete anos.

No entanto, nesse mesmo período, a importante discussão científica em relação à cocaína possibilitou avanços mais relevantes em torno do fenómeno da dependência. De um lado Freud, acreditava no efeito anestésico local e defendia a inocuidade do consumo de coca com o seu trabalho efetuado sob o efeito da mesma. Por outro Louis Lewin, opõe-se a Freud, desenvolvendo o modelo conceptual do fenómeno da dependência das drogas. Posteriormente Freud dá o braço a torcer e publica alguns textos que constroem o conceito de toxicomania.

De qualquer modo, no princípio do século XX nos países ocidentais viveu-se uma epidemia de consumo de cocaína por aspiração nasal, até que as medidas internacionais de controlo e, especialmente, a Segunda Guerra Mundial, reduziram drasticamente o seu consumo. A partir daí e até aos anos 70, o seu consumo foi muito marginal obedecendo a diferentes padrões, de país para país, mas desde a década de 70, a cocaína transformou-se numa droga associada à imagem do êxito, melhores performances e sensação, ainda que irreal, de poder.

Quem ainda frequente estabelecimentos de diversão noturna e/ou espaços de animação cultural, facilmente constata que a cocaína está presente e tão banalizada quanto o haxixe, tão bem conhecido como charro ou ganza, entre outros. Assistimos a uma realidade preocupante, o consumo de cocaína está, sem dúvida alguma, banalizado, descomprometido, faz-se sem preconceito e à vista de qualquer um.

A cocaína é, para os mais incautos, um pó cristalino, branco e, diz-se, de sabor amargo. Pode ser consumido por via nasal, ou seja, snifado, termo contextual, mas também é facilmente absorvido por outras mucosas como as gengivas. De igual modo, pode ser injetado, puro ou misturado em geral com heroína, o que pode originar úlceras, devido à rápida destruição dos tecidos cutâneos.

A velocidade de absorção da cocaína pelo organismo é bastante rápida e a destruição dela substancialmente mais lenta o que causa toxicidade com alguma facilidade.

Sendo uma droga altamente nociva, o que leva as pessoas a consumir? Uma pergunta para a qual existe resposta, desmistificando o conceito sem rodeios. Gostava de sentir-se forte e animado, sem sono ou cansaço, seguro de si mesmo? Queria ser desinibido, sentir-se capaz e competente? Pretende anular a dor e garantir um intenso bem-estar? Além disso, deseja usufruir de um melhor desempenho sexual?

Pois, é isso que quer quem consume a cocaína e esquece que está a iniciar um caminho para o abismo. Na verdade, os consumidores de cocaína quando iniciam o consumo, sentem força, um estado de ânimo exacerbado. Alcançam um ótimo bem-estar, sentem-se capazes e competentes de realizar as suas tarefas com sucesso e melhores rendimentos. Por vezes o consumo é iniciado com a intenção de garantir melhores desempenhos sexuais.

Tudo o que descrevi pode acontecer, inicialmente e com doses moderadas, mas… E depois?

Depois os consumidores vão sentir na pele a perigosidade da substância. Começam a consumir uma dose cada vez maior para obter o mesmo efeito o que irá provocar insónias, agitação; ansiedade e agressividade, ilusões e alucinações (tipicamente ocorrem alucinações zoopáticas – a sensação de ter insetos/animais a percorrer a pele), podem ocorrer tremores e convulsões. À sensação de bem-estar inicial segue-se, em geral uma decaída, caracterizada por cansaço, apatia, irritabilidade e um comportamento impulsivo.

Mas não ficamos por aqui. O consumo de cocaína tem consequências devastadoras. A longo prazo provoca:

Crises de ansiedade e pânico; diminuição da memória; diminuição da capacidade e da concentração; apatia sexual ou impotência; transtornos alimentares (bulimia e anorexia nervosa); alterações neurológicas (cefaleias ou acidentes vasculares como o enfarte cerebral); cardiopatias (arritmias); problemas respiratórios (dispneia ou dificuldade para respirar, perfuração do tabique nasal,…); importantes consequências sobre o feto durante a gravidez (aumento da mortalidade perinatal, aborto e alterações nervosas no recém-nascido).

E, atenção, é vulgar surgir a chamada “psicose da cocaína“, com características similares à psicose esquizofrénica com predomínio das alucinações auditivas e das ideias delirantes de tipo persecutório.

Se pensa que consumir esporadicamente não constitui perigo, então está mesmo em risco. A cocaína é a substância que provoca a maior percentagem de dependentes depois de ser consumida em poucas ocasiões. Devido à curta duração dos seus efeitos e ao rápido aparecimento de sintomas de abstinência, provoca um consumo compulsivo. Apesar de não gerar uma síndrome de abstinência com sinais físicos típicos, as alterações psicológicas são notáveis: hiper-sonolência, apatia, depressão, ideias suicidas, ansiedade, irritabilidade, intenso desejo de consumo. A este estado também se associa, por vezes, o abuso de depressores como as benzodiazepinas, o álcool e os opiáceos.

Agora, que caminho quer seguir?

[Escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.]

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.

Daniel Rodrigues

Entry filed under: + Saúde (Jornal Canas). Tags: .

INEM [Really good news.] Concerteza.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Questionário

Memorando

Interlocutores

  • 120,558 Questionaram

%d bloggers like this: