+ Saúde 17

Fevereiro 2, 2011 at 3:00 pm Deixe um comentário


Artigo publicado na edição n.º 146 do Jornal Canas de Senhorim

Esquizofrenia

Segundo o dicionário Priberam online, a Esquizofrenia é uma “doença mental complexa, caracterizada, por exemplo, pela incoerência mental, personalidade dissociada e rutura de contacto com o mundo exterior.”

Começo propositadamente por transcrever esta definição de esquizofrenia, acessível em qualquer dicionário, com maior ou menor semelhança. Esquizofrenia é isto, uma doença mental.

Ser pessoa portadora de uma doença mental é isso mesmo, ser pessoa. Como qualquer um, os indivíduos portadores de doença mental não são ‘doidos’, não são ‘possuídos pelo demónio’, não são bruxos nem feiticeiros.

Longe vão os tempos onde reinavam esses conceitos misticos e religiosos, mas longos foram esses tempos, em que por ignorância científica se alienavam os doentes mentais, em que a inquisição promovia uma perseguição impiedosa aos seus portadores, enfim, tempos em que as pessoas com doença mental não eram pessoas aos olhos da sociedade.

A evolução das ciências da saúde permitiu-nos derrubar esses conceitos e transformar a vida dos portadores de doenças mentais, especificamente dos esquizofrénicos, numa vida comum, com qualidade, interação social, reabilitação e, muitas vezes, reinserção social.

No entanto há muito a fazer… ainda!

Não podemos continuar a discriminar estas pessoas, a sensibilidade social e a informação deve ser massificada e o desenvolvimento de projetos de suporte e apoio ao doente mental proliferar. A sociedade civil pode ter um papel ainda mais importante que o Estado – aquele que agora corta cega e radicalmente nas despesas da saúde -, é no seio da sociedade que deve nascer uma abertura e consciencialização fundamentais para a realidade das doenças mentais.

Assumir que as doenças mentais são uma realidade; assumir que podemos sofrer de uma doença mental em qualquer período da nossa vida, procurar apoio médico, reconhecer alterações nos nossos processos de pensamento e atividades de vida, perceber as críticas dos outros, são passos inevitáveis para uma reabilitação eficaz e despreconceituosa.

Se assim é para o indivíduo portador, para as pessoas que lidam com alguém aparentemente portador de doença mental é necessário esquecer estereótipos e preconceitos e ajudar a pessoa a procurar apoio, é urgente criticar construtiva e não destrutivamente essa pessoa que está num período crítico. Devemos atender ao facto de que uma pessoa ao encetar ações ou comportamentos anormais pode estar efetivamente com uma perturbação mental e não, apenas e só, a cometer um ato de loucura pontual ou derivado de uma alteração de personalidade.

Posto isto, falemos da Esquizofrenia em si.

É uma das doenças mentais mais graves e importantes, afeta um elevado número de pessoas, está identificada em todo o mundo e atinge todas as classes, raças e etnias.

A nível mundial, a incidência anual da esquizofrenia ronda os 15 por cada 100 000 habitantes e tem uma prevalência de 4,5 por cada 1000 habitantes sendo o risco de a desenvolver ao longo da vida cerca de 0,7%.

A esquizofrenia é uma doença complexa, não existindo uma causa única mas sim várias que concorrem entre si. Desde um quadro psicológico suscetível ao ambiente, histórico familiar da doença e de outros transtornos mentais; e recentemente, tem-se admitido a possibilidade de uso de substâncias psicoativas ser responsável pelo desencadeamento de surtos de quadros psicóticos.

A esquizofrenia caracteriza-se por alterações do pensamento, alucinações (ver, ouvir, sentir coisas irreais), delírios (convicções erradas da realidade, pensar no irreal como real), entre outros.

Devo salientar que os sintomas de esquizofrenia podem ser diferentes de pessoa para pessoa e podem manifestar-se gradualmente ou, pelo contrário, de uma forma abrupta e instantânea.

Habitualmente dividimos os sintomas da esquizofrenia em duas grandes categorias: sintomas positivos e sintomas negativos. Desta forma, os sintomas positivos estão presentes maioritariamente na fase aguda, sendo as ideias delirantes – os pensamentos irreais – e as alucinações – perceções irreais – os mais marcantes, associados a alterações de comportamento, ansiedade, impulsividade e agressividade. Por sua vez, os sintomas negativos derivam da perda das capacidades mentais no decorrer da evolução natural da doença, tais como o défice de motivação, emoção, pensamento e relações interpessoais manifestados como défice de iniciativa, isolamento social, apatia, indiferença e pobreza de pensamento.

A esquizofrenia pode dividir-se em vários tipos. Atualmente, é classificada em:

Esquizofrenia paranoide, onde predominam os sintomas positivos, é mais facilmente identificada pois o doente pode sentir-se perseguido, apresentar comportamentos maníacos (como a obsessão pela limpeza e/ou organização) bem como, comportamentos auto e heteroagressivos.

Esquizofrenia desorganizada, onde os sintomas afetivos e as alterações do pensamento predominam, onde as ideias delirantes estão presentes mas não organizadas, sendo menos credíveis.

Esquizofrenia do tipo catatónico, caracterizada pelo sinais motores e por alterações da atividade, desde o cansaço, à imobilização até à excitação e hiperatividade.

Esquizofrenia do tipo indiferenciado, habitualmente com um desenvolvimento gradual, pautado pelo isolamento social marcado e diminuição no desempenho laboral e intelectual associado a uma certa apatia e indiferença relativamente ao ambiente que o rodeia.

E, por fim, a esquizofrenia do tipo residual, onde os sintomas negativos imperam, os doentes apresentam um isolamento social caracterizado pelo embotamento afetivo e uma pobreza do conteúdo do pensamento.

Para terminar ressalvo, em jeito de síntese, que o tratamento desta doença é essencialmente farmacológico, associado à psicoterapia e ao suporte dado pelos profissionais de saúde para a manutenção/correção de hábitos e atividades de vida diária e promoção da inclusão social.

Muito há para dizer quanto a este distúrbio mas não devo alongar-me mais. Qualquer questão que ache pertinente por favor queira partilhar.

[Escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.]

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.

Daniel Rodrigues

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