+ Saúde 22

Julho 3, 2011 at 11:27 pm Deixe um comentário


Artigo publicado na edição n.º 151 do Jornal Canas de Senhorim

Escolas Promotoras de Saúde

A escola desempenha um papel primordial no processo de aquisição de estilos de vida, que a intervenção da saúde escolar, dirigida ao grupo específico das crianças e dos jovens escolarizados, pode favorecer, ao mesmo tempo que complementa a prestação de cuidados personalizados.”

Cito o Plano Nacional de Saúde transato (2004-2010) como ponto de partida para este ‘+ Saúde’ importando, ainda, enquadrar o conceito de Escola Promotora de Saúde (EPS). A Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou, em 1999, o documento “Saúde para todos” (Health for all) onde definia metas para a saúde nos anos seguintes. A meta 13 prevê que em 2015, para contexto europeu, 50% das crianças que frequente o jardim de infância e 95% das que frequente a escola integrem estabelecimentos de educação e ensino promotores de saúde, definindo o conceito de EPS como aquela que inclui a educação para a saúde no currículo e possui atividades de saúde escolar.

Sendo, na minha opinião, um conceito redutor e facilmente alcançável ou, pelo menos, verificável sem que seja necessária a obtenção de ganhos em saúde quantificáveis, efetivos ou relevantes; é com insatisfação que constato que em Portugal, na generalidade e salvo projetos pontuais, a realização do conceito de EPS anda a uma velocidade reduzida mesmo quando, à priori, a estratégia deveria ser mais ambiciosa que o previsto.

Não obstante o esforço das equipas de saúde escolar dos cuidados de saúde primários, é evidente que muitas metas do plano nacional de saúde não foram cumpridas. Por inúmeras razões, sejam de escassez de recursos humanos, ausência de articulação entre as comunidades educativas e de saúde, insuficiente dotação financeira e técnica das equipas, entre outras.

Este quadro torna-se ainda mais negro com a emergência da crise económica global que afeta de um modo especial o nosso país e, obvia e infelizmente, terá repercussões no financiamento do nosso sistema de saúde. Os decisores políticos, de um modo geral, olham o futuro próximo ignorando as inegáveis vantagens de uma política sustentável de saúde para o futuro dos nossos filhos, ou seja, não permitem políticas que apenas dão frutos nas próximas gerações mesmo que essa seja a estratégia mais eficaz para combater as crescentes despesas da saúde no futuro.

De facto a componente curativa está sobrevalorizada em detrimento da preventiva porque a oferta de tratamento às pessoas configura já uma despesa aparentemente elevada e o investimento na prevenção não é economicamente valorizado. No entanto, se todos alargarmos o espectro temporal, concluimos que uma forte aposta na prevenção reduzirá, inevitavelmente, os custos em tratamento de doenças e, a longo prazo, o custo global dos sistemas de saúde.

Os programas de saúde escolar podem ser dos melhores investimentos, senão o melhor, considerando o custo-benefício e o simultâneo desenvolvimento da educação e da saúde, que um país pode encetar.

Em consonância com a OMS existem uma série de acontecimentos evitáveis com estratégias de saúde escolar e promoção da saúde infantojuvenil, dos quais destaco:

  • A deficiência de vitamina A que é a maior causa de cegueira infantil evitável;

  • A deficiência de iodo é a causa mais comum evitável de deficiência mental e lesão cerebral em crianças;

  • A lesão traumática é a principal causa de morte e invalidez entre os jovens em idade escolar;

  • Um em cada dois jovens que começam e continuam a fumar morrerá com doenças relacionadas com o fumo;

  • Em todo o mundo, 5% de todas as mortes de jovens entre as idades de 15 e 29 anos são atribuíveis ao consumo de álcool;

  • Em alguns países, até 60% de todas as novas infeções por HIV ocorrem entre os 15-24 anos;

Apesar de características específicas, em contexto nacional, regional e local, que podem alterar a prevalência das situações acima referidas ou incluir outras não mencionadas, certo é que a intervenção sustentada e direta em meio escolar previne o aparecimento e promove a deteção precoce e tratamento de doenças.

Se a deteção precoce é fundamental para o tratamento eficaz de determinadas doenças a prevenção de doenças é, de igual modo, fundamental para reduzir as principais causas de morte prematura e doença incapacitante.

Atualmente, as principais causas de morte, doença ou invalidez (como a doença cardiovascular, cancro, doenças pulmonares crónicas, depressão, violência, abuso de drogas, lesões, deficiências nutricionais, HIV/SIDA e infeções sexualmente transmissíveis) podem ser significativamente reduzidas através da redução de seis tipos de comportamento inter-relacionados, que são iniciados durante a juventude – o consumo de tabaco, comportamentos violentos, uso de álcool e substâncias, práticas alimentares e de higiene que causam a doença, estilo de vida sedentário e comportamento sexual desinformado e desprotegido que causa a gravidez indesejada e doenças ou infeções associadas.

Por tudo isto, urge alterar o modelo de saúde – largamente assente na prestação de cuidados curativos e paliativos – centralizando-o na prevenção e constituindo a escola o pilar essencial à construção e manutenção da saúde. Assim contribuiremos, em grande medida, para a prosperidade da população garantindo o empowerment necessário à proteção da saúde do cidadão.

O conceito de Escola Promotora de Saúde implica a criação de um ambiente escolar seguro para viver, aprender e trabalhar; o envolvimento de todos, incluindo a comunidade escolar, as associações locais e regionais, as associações de pais e encarregados de educação, as instituições de saúde e as autarquias com vista à conversão da escola no espaço ideal de responsabilização pela saúde e prevenção da doença nas comunidades.

Importa criar mecanismos de intervenção na sociedade a partir da escola desenvolvendo a consciencialização para a promoção da saúde, desenvolver projetos e programas de saúde, prevenção de acidentes e promoção de uma cultura de segurança, garantir uma nutrição e alimentação saudável com restrições a alimentos menos saudáveis ou nocivos em contexto escolar, criar gabinetes de apoio e aconselhamento social, promoção da saúde mental, prevenção e correção de comportamentos de risco com enfoque na reconversão ao invés da punição, bem como, detetar casos de vulnerabilidade social e/ou crianças/jovens em risco.

As EPS’s devem focar-se na promoção do cuidar de si e dos outros, na tomada de decisões saudáveis e controlo das circunstâncias da vida, criação de condições favoráveis à saúde (políticas, serviços, condições físicas e sociais), manutenção de um ambiente de paz, abrigo, educação, alimentação, equidade, justiça social e desenvolvimento sustentável e, como já referi, impedir as principais causas de morte, doença e incapacidade influenciando comportamentos relacionados com a saúde (conhecimentos, crenças, habilidades, atitudes, valores e apoios).

Tudo isto está pensado, tudo isto foi discutido, tudo isto foi comprovado. Resta combater os obstáculos à implementação e desenvolvimento deste paradigma da saúde e, para isso, todos podemos e devemos contribuir.

[Escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.]

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.

Daniel Rodrigues

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Golpe Curtas.

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