+ Saúde 31

Artigo publicado na edição n.º 161 do Jornal Canas de Senhorim

O Serviço Nacional de Saúde: a sua sustentabilidade e a utilização responsável de recursos.

Com o advento da crise económica que atravessa o nosso país a saúde não escapou nem escapará aos cortes dramáticos, o que não é agradável nem tampouco popular. De facto a ordem do dia é racionalizar, e se existem áreas onde isso é, porventura, impossível a saúde, em concreto o Serviço Nacional de Saúde (SNS), não é uma delas. O SNS foi e será um projeto da democracia, um pilar de sustentação do cidadão português, uma mais-valia inestimável, no entanto, racionalizar é assegurar que ele se mantenha firme e sustentável garantindo que as gerações vindouras também possam dele usufruir.

Os profissionais de saúde bem sabem que existem lacunas a corrigir, gastos excessivos e gestão ineficaz, e são eles quem melhor enuncia o caminho para a racionalização de recursos no SNS. Ultimamente temos observado vários movimentos de utentes e profissionais de saúde em luta contra o encerramento de determinado urgência ou determinado hospital, essa é porém a via mais fácil, não que seja condenável tendo em conta os hábitos de saúde das pessoas e as rotinas e experiências adquiridas pelos profissionais em determinado hospital ou serviço específico, no entanto, em si estas lutas promovem precisamente o contrário do seu objetivo último.

Quando assegurar a sustentabilidade do SNS passa por encerrar determinados hospitais que, das duas uma, ou não cumprem os seus objetivos ou replicam ofertas numa determinada área geográfica, lutar contra esse encerramento é o mesmo que lutar contra a sobrevivência do SNS. Desde que se garanta o acesso aos cuidados de saúde a toda a população esta gestão de recursos é indispensável.

Não quero, deste modo, defender a política de saúde atual ou pelo menos toda ela, mas devo frisar que o caminho que está a ser seguido é, na generalidade, aceitável e necessário.

A racionalização de recursos não passa apenas pelo encerramento de unidades, mais importantes ainda são a sensibilização dos profissionais de saúde, a política dos recursos humanos e a informação aos cidadãos. O Governo, especificamente, o Ministério da Saúde peca por não auscultar os profissionais de saúde envolvidos nas transformações ou por não incentivar a discussão pública à priori, desse modo conseguiria alcançar consensos e melhores soluções.

Existe ainda um longo caminho a percorrer na sensibilização e informação dos portugueses, seja na área do medicamento onde proliferam consumos excessivos; no acesso às urgências hospitalares que é anárquico; na utilização do sistema de emergência médica pré-hospitalar; ou, ainda, na utilização dos cuidados de saúde primários.

A política de recursos humanos é, na linha de atuação do governo no que toca ao emprego, catastrófica, existem profissionais desmotivados e sobrecarregados. A carência de recursos humanos em saúde é um exemplo de má política e se, em alguns casos, essa carência resulta da parca oferta formativa, noutros casos ela resulta meramente de políticas de gestão erradas. Se os recursos humanos do SNS fossem reforçados a qualidade dos cuidados de saúde prestados melhorava exponencialmente e teria repercussões nos ganhos em saúde e na prevenção da doença, daí que mais recursos humanos pode significar menores custos, seria rentável.

Os cuidados de saúde primários também não têm sido suficientemente valorizados, é neles que reside a maior quota de ganhos em saúde potencial, uma maior aposta nos cuidados de saúde primários e a sensibilização das populações para a sua utilização permitiria reduzir drasticamente a doença e a utilização dos hospitais.

Saiba, a título de exemplo, que recorrer a uma urgência polivalente de um hospital central (ex.: urgência do Hospital São Teotónio – Viseu) custa, aos cofres do Estado, sensivelmente o triplo (ronda os 150€) do que recorrer a uma urgência básica (ex.: Hospital Cândido de Figueiredo – Tondela), ou dez vezes mais do que recorrer ao SAP de Nelas. Pense duas vezes quando necessitar de recorrer a uma urgência, pode ser atendido com a mesma qualidade e com maior rapidez numa urgência de tipologia inferior e está a poupar dinheiro aos contribuintes.

Um outro hábito – fundamental – que ainda não está suficientemente enraizado é a utilização da linha Saúde 24. A linha Saúde 24 é uma linha telefónica que fornece toda a informação necessária em caso de doença, desde os primeiros cuidados a ter, ao hospital mais adequado à sua situação específica e até a referenciação ao hospital, sendo que, antes de você chegar o hospital já estará informado da sua chegada.

Pela sobrevivência do SNS, utilize-o racionalmente!

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

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Julho 20, 2012 at 3:53 am Deixe um comentário

+ Saúde 30

Artigo publicado na edição n.º 160 do Jornal Canas de Senhorim

Tuberculose

Desde muito cedo sinto o estigma associado a diversas doenças, estigma tal que ostraciza a vítima dessa doença ao ponto de culpabilizá-la por algo que ela, muitas vezes, não conseguiria evitar. Este quadro é uma das pinturas mais aterradoras no panorama da saúde se nos lembrarmos que a pessoa doente é uma pessoa fragilizada e não merece, nem de longe nem de perto, qualquer tipo de estigma, preconceito, segregação ou exclusão.

Urge informar para a saúde contribuindo para erradicar o estigma associado a doenças, principalmente no que toca às doenças infeciosas, transmissíveis ou à doença mental. Dito isto, em jeito de declaração de interesses, avancemos para o tema central. À data que escrevo assinala-se o Dia Mundial da Tuberculose (24 de março) e é dela que vamos falar.

Saiba, caro leitor, que só em 2010, «quase nove milhões de pessoas ficaram doentes devido à tuberculose e 1,4 milhão de pessoas morreu devido à mesma causa» no mundo? (dados da OMS). Estes números fazem da tuberculose a doença infeciosa mais letal para a população adulta em todo o mundo. O desafio lançado neste dia internacional: “Erradicar a tuberculose na nossa geração”, é uma meta tão ambiciosa como necessária. Esperemos que se torne realidade.

A tuberculose é uma doença infeciosa causada por um micróbio – o bacilo de Koch* -, transmite-se de pessoa para pessoa e atinge principalmente os pulmões. Dos sintomas destacam-se a tosse crónica, a febre, a persistência de suores noturnos, dores no tórax, a perda de peso lenta e progressiva, a falta de apetite e a apatia.

A transmissão da doença ocorre através da respiração, que faz penetrar o bacilo de Koch no nosso organismo, ou seja, quando uma pessoa com tuberculose tosse, fala ou espirra, espalha no ar gotículas que contém o bacilo e uma pessoa saudável que respire o ar desse ambiente pode infetar-se.
Na maioria das vezes o organismo resiste e a pessoa não adoece, o indíviduo torna-se portador do bacilo e quando fragilizado por outra doença, como o cancro, a diabetes, a sida  ou alcoolismo, acaba por não resistir. Os doentes com tuberculose que já estão a ser tratados não oferecem perigo de contágio porque a partir do início do tratamento este risco vai diminuindo dia após dia e estima-se que quinze dias depois de iniciado o tratamento o risco de contágio seja nulo.

Como em todas as doenças, a prevenção é a arma mais poderosa e, neste caso, é feita através da vacina BCG, que é aplicada nos primeiros 30 dias de vida e capaz de proteger contra as formas mais graves de tuberculose.
A tuberculose deve ainda tratar-se, o mais precocemente possível, para que o contágio não prolifere. O tratamento deve ser acompanhado pelo médico de família do seu centro de saúde. Se uma pessoa com tuberculose não procurar ajuda e se não for tratada atempada e convenientemente, a probabilidade de vir a morrer na sequência da doença é muito elevada. Por outro lado, quando um doente abandona ou interrompe o tratamento que lhe foi prescrito, aumenta também a probabilidade de vir a morrer da doença, uma vez que possibilita o aparecimento de novos bacilos de Koch, resistentes aos medicamentos atualmente usados para o tratamento e controlo da tuberculose.

Não se esqueça…
O estigma não trata, não cura e não previne. Se conhece, informe-se. Se sente, procure ajuda.

*Koch – Robert Koch foi o médico alemão que identificou, em 1882, o bacilo da tuberculose. Este médico viria a receber, em 1905, o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina por essa descoberta e o bacilo da tuberculose ficou conhecido por bacilo de Koch em sua homenagem.

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

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Julho 20, 2012 at 3:49 am Deixe um comentário

+ Saúde 29

Artigo publicado na edição n.º 159 do Jornal Canas de Senhorim

Colecistite

A «pedra» na vesícula!

É muito comum ouvirmos alguém queixar-se de «pedra» na vesícula e já nos questionámos várias vezes que pedras são essas, certo? É com esse objetivo que escrevo hoje, elucidar-vos quanto à colelítiase e à colecistite bem como aos mecanismos associados a estas patologias.
Em primeiro lugar vamos perceber que a colelítiase é o termo técnico para definir a «pedra» ou os cálculos na vesícula biliar e a colecistite é uma inflamação da vesícula biliar que pode estar associada à obstrução da mesma pelos tais cálculos, «pedra» ou lítiase, todos termos que definem a mesma entidade.
A vesícula biliar, por sua vez, não é mais do que um depósito de bílis que é um líquido produzido pelo fígado, constituído por bicarbonato, colesterol, pigmentos e água; com a função de auxiliar na degradação de gorduras, sendo por isso drenada para o intestino durante a digestão. Quando não ocorre  digestão ela fica armazenada na vesícula biliar.

Assim sendo, como é que surge a colelítiase, a «pedra» na vesícula?
Essencialmente a lítiase pode surgir por duas vias, a carência de água  ou o excesso de colesterol na bílis e existem uma série de fatores que contribuem para isso, tais como: a idade (o risco de desenvolver colelítiase é 4 vezes maior após os 40 anos), o sexo (sendo mais comum em mulheres graças aos níveis de estrogénio, pelo que pode ocorrer durante uma gravidez), a obesidade, diabetes, cirrose hepática, jejum prolongado, sedentarismo, doença de Crohn e anemia falciforme.

Facilmente percebemos que a melhor forma de a evitar é efetuar uma alimentação pobre em gorduras, não fazer jejuns prolongados entre refeições, beber água e praticar exercício físico mas… ou nós não prevenimos ou isso nem sempre é suficiente, não é verdade?

Quando surge a lítiase temos as suas complicações. O sintoma principal associado à lítiase é a dor intensa do lado direito do abdómen – a cólica biliar – que ocorre de uma forma intermitente e normalmente após a ingestão de alimentos. Esta dor funciona como um sinal de alarme, indica-nos que existe «pedra» na vesícula, e com ela – a colelítiase – o risco de colecistite aumenta drasticamente.

A colecistite, como disse, não é mais do que uma infeção da vesícula biliar que ocorre por retenção de bílis e disseminação de bactérias, esta retenção pode ser causada por jejum prolongado ou outras entidades patológicas; e por obstrução causada pela lítiase, o que corresponde a cerca de 80% dos casos.
Ao contrário da cólica biliar onde a dor é limitada e desaparece após o relaxamento da vesícula fora dos períodos de alimentação, na colecistite a dor é constante e mais forte e pode associar-se a vómitos e febre.

É fundamental sabermos identificar os sintomas compatíveis com uma colecistite porque este quadro necessita de intervenção precoce para evitar complicações graves.

O tratamento mais comum é a colecistectomia (remoção da vesícula biliar) e pode ser realizada por cirurgia aberta ou por video-laparoscopia. Normalmente não ocorrem complicações após a cirurgia e a pessoa terá apenas que evitar o consumo excessivo de gorduras.

Não menospreze! A «pedra» na vesícula pode tornar-se uma emergência médica que necessita de uma resolução imediata.

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

Julho 20, 2012 at 3:46 am Deixe um comentário

+ Saúde 28

Artigo publicado na edição n.º 158 do Jornal Canas de Senhorim

A obrigatoriedade de pagar e o direito a receber!

O título do ‘+ saúde’ deste mês é tudo menos inocente.
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi construído no pressuposto de garantir cuidados de saúde gratuitos a toda a população. Pressuposto esse que sabemos estar de longe ultrapassado. Ao longo dos anos o custo da saúde tem aumentado exponencialmente e a performance financeira do país tem, por sua vez, evoluído no sentido inverso – reflexos de um país gerido ao sabor da circunstância.
Seria natural esperarmos o acentuado aumento da despesa com a saúde face ao desenvolvimento das ciências da saúde, da farmacologia e da tecnologia da saúde, tão natural como aferirmos que este desenvolvimento traria consigo um maior espectro de atuação dos profissionais de saúde, mais tratamentos inovadores, maior acesso aos cuidados, melhores indicadores de saúde e, o consequente, aumento da esperança média de vida.
Seria… mas não foi.

Nunca o SNS foi pensado para o futuro, foi sempre pensado e projetado para o agora. Esse foi o maior erro desta grande conquista da democracia e só agora tentamos resolvê-lo. A resolução passa e passará por: prever, a longo prazo, os custos associados à doença tendo em conta a evolução dos indicadores epidemiológicos e distribuir os recursos da saúde de acordo com os mesmos; por uma política que privilegie os cuidados de saúde primários com enfoque na promoção da saúde e na prevenção da doença; por criar condições para a diminuição de custos associados aos recursos humanos; por uma política do medicamento que incentive o consumo adequado e barato de medicamentos; pela razoabilidade económica de novos projetos de saúde, pela isenta avaliação de projetos manifestamente caros na relação custo/resultado e, por último o mais importante, pela esclarecida participação e contribuição do cidadão para a melhoria do sistema de saúde.
Muitas alterações positivas têm sido levadas a cabo mas nem todas correspondem às necessidades do cidadão ou aumentarão a sustentabilidade do SNS. A alteração mais mediática ocorrida nos últimos tempos, foi o aumento das supostas taxas moderadoras – que de moderadoras nada têm e desconfio nunca tiveram. Estas taxas foram criadas para demover a procura de serviços de saúde mais caros que o necessário para a situação específica de doença da pessoa em causa, arrisco dizer que esse objetivo nunca foi realmente atingido, basta olharmos para a afluência de doentes não-urgentes registada nos serviços de urgência hospitalar para o percebermos. No entanto, uma medida falhada foi constantemente retomada e agravada. Porquê?
Parece-me simples.

As taxas moderadoras deixaram de ser aplicadas como um filtro de acesso para se transformarem numa fonte de financiamento de cuidados de saúde. Um financiamento mascarado, é certo, mas não deixa de o ser.
Como esta medida me parece inócua para a resolução dos problemas do SNS mas catastrófica para o bolso de muitos portugueses aproveito este espaço para dar-vos conta de algumas alterações ao regime de taxas moderadoras.
O novo regime de taxas moderadoras isenta diretamente as seguintes pessoas: utentes em situação de comprovada insuficiência económica, bem como os membros dependentes do respetivo agregado familiar; grávidas e parturientes; crianças até 12 anos de idade, inclusive; utentes com grau de incapacidade igual ou superior a 60%; doentes transplantados; os militares e ex-militares das Forças Armadas que, em virtude da prestação do serviço militar, se encontrem incapacitados de forma permanente;
Existe outro grupo de isenção restrito aos cuidados de saúde primários composto por: dadores benévolos de sangue; dadores vivos de células, tecidos e órgãos; bombeiros.
Atente-se que a situação de comprovada insuficiência económica só é atestada quando efetuado requerimento devidamente documentado que prove que o rendimento mensal do agregado familiar é inferior a 628,83 €, procure mais informações no seu centro de saúde ou em http://www.min-saude.pt.
Posto isto, aconselho todos os cidadãos a comprovarem a sua ‘peculiar’ situação de ‘insuficiência económica’, mas aconselho mais, aconselho todos os cidadãos a tornarem-se dadores benévolos de sangue ou dadores vivos de células, tecidos e órgãos ou, ainda, a tornarem-se bombeiros. Pelo menos conseguirão a isenção nos cuidados de saúde primários, vulgo centros de saúde.
Podemos concluir que muitos portugueses vão ter sérias dificuldades em suportar os custos relacionados com taxas moderadoras e essas dificuldades vão espelhar-se no aumento de assimetrias a desigualdades no acesso aos cuidados de saúde.
Voltando à ideia de que estas taxas já não moderam mas custeiam, podemos pensar no princípio do utilizador-pagador, nessa medida, o utilizador é duplamente pagador, paga em impostos e paga em taxas moderadoras. Se pagamos duas vezes temos o redobrado direito a reclamar uma boa prestação de serviços.
É por isso que termino com um incentivo: Façam o favor de reclamar.
«O livro de reclamações é o documento onde os utentes podem registar reclamações e/ou sugestões sobre o funcionamento dos serviços do Serviço Nacional de Saúde ou sobre o pessoal que aí trabalha. O livro de reclamações, aprovado pela Portaria n.º 355/97, de 28 de maio, é vulgarmente conhecido por “Livro Amarelo”.»
Este excerto retirado do site do Ministério da Saúde é bem claro, existem livros de reclamações prontos a serem utilizados. Um cidadão que reclama com legitimidade não está a ir contra ninguém, está a exercer a sua cidadania, está a defender um SNS de qualidade e acessível a todos e está, em última instância, a defender todos os utentes e até, se for o caso, os profissionais que motivaram a reclamação.

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

 

Julho 20, 2012 at 3:43 am Deixe um comentário

+ Saúde 26

Artigo publicado na edição n.º 156 do Jornal Canas de Senhorim

Tabagismo

Sabia que o consumo de tabaco é a principal causa de doença e de mortes evitáveis?

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), morrem anualmente cerca de 4,9 milhões de pessoas, em todo o mundo, devido ao tabagismo. Se a epidemia – é disso que se trata – não for travada, estima-se que, em 2020/30, esse número chegará aos 10 milhões de pessoas por ano.
O tabagismo está associado a: um terço de todos os casos de cancro; 90% dos casos de cancro do pulmão; cancro do aparelho respiratório superior (lábio, língua, boca, faringe e laringe); cancro da bexiga, rim, colo do útero, esófago, estômago e pâncreas; doenças do aparelho circulatório, das quais a doença isquémica cardíaca (25%); bronquite crónica (75-80%), enfisema e agravamento da asma; irritação ocular e das vias áreas superiores.
Uma vez iniciado, o consumo do tabaco, rapidamente se transforma em dependência (física e psíquica), provocada por uma droga psicoativa – a nicotina – presente na folha do tabaco. Efetivamente estamos perante uma dependência e devemos tratá-la como tal.
Podia continuar a ocupar este espaço enumerando os riscos, os prejuízos e as doenças associadas ao tabagismo?
Podia, mas não vou por aí.

Todos estamos fartos de saber que o tabaco mata, que o tabaco prejudica, que o tabaco impede, que o tabaco isto e que o tabaco aquilo. Importa refletir nas vantagens da privação ao invés de continuar a insistir nas consequências do uso.
Deste modo, caro leitor, se fuma esteja atento às seguintes objeções.
– Após oito horas, os níveis de monóxido de carbono no organismo baixam e os de oxigénio aumentam;
– Passadas 72 horas, a capacidade pulmonar aumenta e a respiração torna-se mais fácil;
– Com cinco anos de abstinência do tabaco, o risco de cancro da boca e do esófago é reduzido para metade;
– Ao final de dez anos, o risco de cancro do pulmão é já metade do verificado em fumadores, e o de outros cancros diminui consideravelmente.
– Após 15 anos de abstinência, o risco de doença cardiovascular é igual ao de um não fumador do mesmo sexo e idade.
– Parar de fumar diminui o risco de morte prematura.
São motivos bastantes para parar, pensar e tentar deixar de fumar. Se ainda não está convencido, não tem a sua saúde em boa conta ou, por outro lado, a sua dependência é tal que esta lista não é suficiente para a tentativa de privação, ainda tenho mais alguns motivos para lhe oferecer. Sejam eles a aparência renovada, um hálito mais fresco ou um travão ao envelhecimento precoce.

Bem, e dinheiro? Pensemos no dinheiro. Fuma um maço de tabaco por dia, certo? Então veja, um maço de tabaco ronda, atualmente, os 3,5€, ao fim do mês gastou em média aproximadamente 107€, sabe o que poderia fazer com esse dinheiro? Imagino que sim. Mas não fiquemos por aqui, multiplique esse valor – 107€ – por 12 e chegará à módica quantia de 1284€. É essa – mil duzentos e oitenta e quatro euros – a quantia anual que dispende em tabaco. A grande maioria dos portugueses não aufere essa quantia mensalmente ou sequer em dois meses ou até três. As últimas notícias da austeridade indicam-nos mais um aumento no imposto sobre o tabaco portanto este valor está ainda subvalorizado quando as mesmas notícias nos dizem que o nosso salário emagrecerá cada vez mais.
Acha necessário listar-lhe a quantidade de coisas que podia fazer com esse dinheiro? Julgo que não.
Passemos à fase seguinte. Como deve ter reparado, ao longo deste texto, nunca disse “deixe de fumar”, ou “pare de fumar”, ou “não fume”. O tabagismo deve ser tratado como aquilo que é – uma dependência -, e, acredito, as dependências não se tratam com imposições mas sim com incentivos, apoio e suporte na reabilitação. Para isso disse “tente parar de fumar”. Ao contrário do estereótipo, grande parte dos fumadores não fuma por prazer, ou já não fuma por prazer mas sim para colmatar uma necessidade física e psíquica do seu corpo. Se fuma percebe isso melhor que ninguém. Percebe que após uma discussão acalorada sente uma enorme vontade de fumar um cigarro, percebe que antes de um momento de avaliação precisa de fumar cigarro atrás de cigarro, percebe que durante momentos de pressão está constantemente a fumar. Sim, esta é a realidade de qualquer fumador.
E como vamos ultrapassar isto caro leitor/fumador?
É fundamental ter presente os motivos pelos quais deve deixar de fumar, faça uma lista onde constem todos os benefícios em saúde e todos os objetos ou objetivos que conseguiria adquirir ou alcançar com o dinheiro que pouparia deixando de fumar. Pegue nessa lista e afixe-a em local bem visível no seu frigorífico, na sua casa, no seu carro, no seu local de trabalho, etc.
Marque um dia para deixar de fumar e crie esse compromisso associando-lhe um motivo principal. Anuncie aos seus familiares, amigos e colegas de trabalho, no sentido de estes poderem ajudá-lo neste compromisso.
Identifique quais os momentos em que fuma mais e tente contorná-los. Esses momentos duram apenas alguns minutos, se conseguir resistir a vontade passará. Evite permanecer em locais onde existam pessoas a fumar e não entre em contacto com o tabaco ou outros objetos relacionados com o vício.
Pode colocar o dinheiro que gastaria no tabaco num mealheiro exclusivo e, com esse dinheiro, comprar algum objeto que gostaria de adquirir há muito tempo.
Pratique atividade física, é certo que ela ajuda não só a uma boa forma física como, também, diminui a ansiedade e as alterações de humor próprias de um ex-fumador.
Por fim, procure aconselhamento médico. Existem consultas de cessação tabágica em vários centros de saúde, aí pode usufruir de apoio especializado.
Se não conseguir à primeira, tente a segunda, tente a terceira, tente a quarta. Mais tarde ou mais cedo irá conseguir.
———————–
Declaração de interesses:
Foi com estupefação que assisti, recentemente, a declarações do Bastonário da Ordem dos Médicos que sugeriam o incentivo ao tabagismo jutificando tal barbaridade com o aumento da receita do Estado através do imposto sobre o consumo de tabaco. A gravidade de tais declarações não assenta apenas na irresponsabilidade do incentivo a práticas que matam mas também, e não menos importante, ao total desrespeito pelo fumador, pela sua saúde e pela sua situação económica que tal atitude demonstrou. Como disse anteriormente, e este representante de uma instituição que deve defender a saúde pública bem o sabe, os fumadores podem não ser obrigados a começar a fumar mas a certa altura são compulsivamente tentados a fazê-lo. É duma dependência que falamos e não de um prazer.

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

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Julho 20, 2012 at 3:36 am Deixe um comentário

+ Saúde 25

Artigo publicado na edição n.º 155 do Jornal Canas de Senhorim

Alcoolismo

O alcoolismo é um problema de saúde pública que não deve ser menosprezado. Abordo-o neste espaço com o intuito de sensibilizar a população para o crescente risco de problemas associados ao consumo de álcool inerente ao aumento desse consumo fruto das condições socioeconomicas atuais.

A emergência do álcool ou etanol em todas as civilizações, apesar de algumas religiões, como o Islão, a terem restringido ou proibido, remonta ao Neolítico associada ao surgimento da agricultura. Mais tarde, o álcool acaba por adquirir um caráter religioso transversal i.e. no espaço greco-latino com Dionísio e Baco, nos Aztecas, na religião familiar chinesa, no Hinduismo e até na liturgia cristã com presença constante.
O universalismo do consumo do álcool é, desde aí, uma realidade e o marcado caráter social desta substância e a grande aceitação de que goza, permitem catalogar como sendo normais alguns padrões de consumo que, na realidade, são claramente exagerados.

É deste exagero que surgem uma série de consequências adversas. Oferecendo uma sensação inicial de euforia e desinibição – bloqueia o funcionamento do sistema cerebral responsável por controlar as inibições – o consumo do álcool torna-se bastante atrativo no contacto social. Mas não podemos esquecer o reverso da medalha.
Com inibições reduzidas o indivíduo detém uma falsa segurança em si mesmo que o poderá levar, em determinadas ocasiões, a adotar comportamentos de risco e/ou perigosos. À sensação inicial de euforia e de desinibição, segue-se um estado de sonolência, visão turva, descoordenação muscular, diminuição da capacidade de reação, de atenção e compreensão, fadiga muscular, etc.
O resultado é franca e frequentemente negativo. Os acidentes rodoviários merecem destaque especial já que uma grande parte deles está diretamente relacionada com o consumo do álcool e, indiretamente, o consumo do álcool constitui a primeira causa de morte entre os jovens.
Para além dos efeitos nefastos que já  referi, o excessivo consumo de álcool produz acidez no estômago, vómitos, diarreias, sede, dor de cabeça, desidratação, falta de coordenação, lentidão dos reflexos, vertigens e/ou visão dupla e perda do equilíbrio. Em casos  mais graves pode mesmo levar a uma depressão respiratória, ao coma e eventualmente à morte.
Mas não ficamos por aqui. Cingi-me até agora aos efeitos de curto prazo, no entanto, a longo prazo, o consumo repetido de álcool provoca patologias em diversos órgaos do nosso organismo. Vejamos que a função cerebral é deteriorada; ocorrem alterações cardíacas e sanguíneas como a miocardite, anemia e diminuição do sistema imunitário; é frequente ocorrer hepatite e cirrose hepática;  ao nível do estômago podem ocorrer úlceras e/ou gastrite; inflamação do pâncreas  ou pancreatite; ao nível do intestino podem ocorrer transtornos na absorção de nutrientes; entre as perturbações psíquicas podemos destacar a irritabilidade, a insónia, os delírios por ciúmes, as ideias de perseguição e, ainda mais graves, as encefalopatias com demência alcoólica.

Posto isto, deixo um apelo a todos. Detetar situações de alcoolismo crónico, admitir um estado de dependência e/ou procurar ajuda é fundamental para possibilitar o tratamento, só quando a pessoa decide procurar ajuda é possível iniciá-lo.

Existe na região centro do país uma unidade especializada, a Unidade de Alcoologia do Centro (UAC) sob a alçada do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). É relativamente fácil aceder a ela e iniciar o tratamento através de uma primeira consulta de avaliação. A consulta pode ser marcada pessoalmente ou por telefone, das 8h30 às 16h nos dias úteis, sendo totalmente gratuita (isenta de taxa moderadora). Para a primeira consulta deve fazer-se acompanhar de alguns documentos, tais como, cartão do cidadão ou bilhete de Identidade, cartão de utente, cartão do subsistema de saúde a que pertence e boletim de referência do médico de família (vulgo Credencial – modelo P1) entre outros documentos e/ou análises e exames clínicos relevantes que disponha.

Nesta unidade pode usufruir de acompanhamento especializado e da modalidade de tratamento mais eficaz, individual e gratuita. A UAC situa-se dentro do espaço físico do Hospital Sobral Cid, na Conraria em Coimbra.
Deixo-vos o contacto telefónico – 239 793 710 – e o email –  secretariado@crac.min-saude.pt – para que possam, caso seja necessário procurar o apoio devido.

Não pense que este é um problema dos outros quando todos dizem o contrário!

[Escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.]

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

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Julho 20, 2012 at 3:30 am Deixe um comentário

+ Saúde 24

Artigo publicado na edição n.º 153 do Jornal Canas de Senhorim

Colesterol

Haverá alguém que ainda não tenha ouvido falar em colesterol?

Julgo que poucas pessoas. O colesterol é famoso pela sua responsabilidade, quando em excesso no organismo, por graves doenças cardiovasculares como o enfarte ou o acidente vascular cerebral. A hipercolesterolémia – termo técnico que define o excesso de colesterol -, o tabagismo e a hipertensão arterial constituem uma tríade potencialmente mortal pelo elevado potencial precipitante dessas doenças.
Apesar de já terem ouvido falar no colesterol depreendo que alguns não saibam o que ele realmente é, razão pela qual passo a explicar.

O colesterol é um componente essencial das membrans celulares dos mamíferos, encontra-se nas membranas celulares e é transportado pelo plasma sanguíneo dos animais. Pode ter duas origens, a orgânica – produzido pelo fígado – e alimentar, proveniente da alimentação. É uma substância extremamente importante na síntese de hormonas, construção e manutenção das membranas celulares. Como o colesterol é insolúvel em água ele é transportado no sangue através de lipoproteínas, as LDL e as HDL (porventura vossas conhecidas dos relatórios de análises ao sangue). De uma forma simplista as lipoproteínas LDL transportam o colesterol do fígado para as células e outros tecidos e se aumentadas podem contribuir para a formação de placas de ateroma nos vasos sanguíneos que, por sua vez, potenciam o aparecimento das doenças cardiovasculares; por outro lado, as lipoproteínas HDL terão a capacidade de absorver colesterol depositado nas paredes dos vasos sanguíneos retardanto a formação dos ateromas. Daí que valores elevados do chamado ‘colesterol bom’ ou HDL não sejam preocupantes, antes pelo contrário.

Explicado o porquê da existência de colesterol e as consequências do excesso do mesmo no organismo, vejamos como podemos regular a quantidade do mesmo garantindo níveis adequados.
Sendo que o excesso de colesterol não provoca sinais nem sintomas devemos efetuar análises regulares ao sangue, de acordo com aconselhamento médico, tendo em conta a idade e a existência de hipercolesterolémia na família.
A correção da hipercolesterolémia passa pela adoção de uma dieta saudável e específica, a prática de exercício físico e o tratamento farmacológico – idealmente por esta ordem de prioridades.
Assim sendo, antes de iniciar o tratamento farmacológico, o ideal será promover uma alimentação saudável e praticar exercício físico (caminhar, dançar, andar de bicicleta, etc). Se ao fim de alguns meses não houver alterações poderá então ser necessária a adição de fármacos.
Embora a alimentação possa não ser a causa principal do excesso de colesterol quando por determinação genética, o organismo o produz em excesso, ela pode agravar ainda mais a situação. A alimentação deve, pois, limitar alguns alimentos que favorecem o aumento de colesterol e privilegiar outros que o previnem ou combatem.
O plano a seguir passa por preferir o azeite a outras gorduras, limitar o consumo de carnes vermelhas a 2-3 vezes por mês e evitar o consumo de órgãos e vísceras preferindo o consumo de peixes, mariscos e carne de aves (frango, perú, …). Em substituição da carne pode consumir leguminosas (grão-de-bico, feijão, favas ou lentilhas). Por fim, coma pão, farinhas, massas ou arroz com maior teor de fibras.
Lembre-se, pequenos gestos significam grandes ganhos em saúde!

[Escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.]

Para sugestões e/ou recomendações de temas a abordar nesta rubrica, agradeço que contactem via eletrónica para danyelrodrigues@gmail.com.
Daniel Rodrigues

Julho 20, 2012 at 3:26 am Deixe um comentário

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